Marcos NegriniSoluçãoIanni: ‘‘O jeito é globalizar de baixo para cima; estamos nos enganando com a regionalização do mercado’’Os governos se entregaram às corporações
Sociólogo colega de FHC revela seu pessimismo com relação à ação das empresas na economia mundial e na vida das populações
Marccio W. Varella
FolhaComo o senhor vê o funcionamento de blocos econômicos como o Mercosul?
IanniA meu ver esses blocos econômicos são um produto da tensão entre o globalismo de um lado e o nacionalismo do outro. Como as economias nacionais estão sendo pouco capazes e já são quase que totalmente incapazes de resistir às forças da globalização, então a regionalização (formação de blocos) tem sido uma tendência mais ou menos acentuada. Tudo isso é uma realidade, sim, tudo bem, mas ao mesmo tempo é uma solução ilusória porque quem comanda esses blocos econômicos não são os governos nacionais. Não é verdade que o governo da Argentina, do Brasil, do Uruguai, do Paraguai comandam o Mercosul. O Mercosul é dinamizado pelas corporações transnacionais, de modo que estamos diante de um mal-entendido. O que as corporações transnacionais que comandam a globalização fizeram para as economias nacionais, desbaratando, criando grandes desafios, estão realizando no âmbito do regionalismo (blocos econômicos). O regionalismo parece uma tentativa de controlar essa situação, mas os governos não estão mostrando capacidade e força de se constituírem como organizações regionais realmente fortes, no sentido de proteger suas economias e suas populações da agressividade dessas corporações.
FolhaCom isto o senhor quer dizer que as economias nacionais perderam a sua capacidade de tomar decisões próprias?
IanniEstamos duplicando as relações de dependência. Somos dependentes de corporações transnacionais, e é claro do FMI, do Banco Mundial em escala global, e somos dependentes dessas mesmas instituições em escala regional. Porque quem decide, quem influencia de uma maneira mais ou menos decisiva as diretrizes da economia argentina, por exemplo, é o FMI. O mesmo ocorre no Brasil e outras nações. Estamos a rigor nos enganando com a regionalização, que em lugar de solução para economias nacionais está sendo o berço de uma técnica de organização de mercados regionais para favorecer a transnacionalização. Qual o diálogo do governo argentino com o povo da Argentina sobre o Mercosul? Nulo. Qual o diálogo do governo brasileiro com o povo brasileiro sobre o Mercosul? Nulo. Quer dizer: os governantes não estão assumindo certas possibilidades que se abriram com a regionalização. Ou seja, estão abrindo mercados, redefinindo instituições, favorecendo a agilização de fluxos de capitais, de tecnologias e até de mão-de-obra, mas tendo em vista favorecer principalmente as corporações transnacionais, que a rigor são as organizações que comandam a globalização da economia mundial no momento.
FolhaEssas corporações transnacionais também estão sujeitas às crises do mercado financeiro?
IanniVeja bem: as corporações transnacionais são as novas estruturas mundiais de poder. Cada uma delas tem a sua própria geoeconomia. Elas organizam a sua atividade segundo os seus desígnios, à revelia dos governantes e até mesmo à revelia dos governantes dos seus países de origem. A GM, a Mitsubishi, a Volkswagen atuam no mundo segundo o seu mapa de mundo. Esta é uma realidade que não está suficientemente enfatizada. E o pior de tudo: o FMI e o Banco Mundial favorecem a dinâmica dos negócios dessas corporações. Me responda uma coisa: qual a corporação transnacional que faliu com a crise da Indonésia? Nenhuma. Ao contrário, estão fazendo uma festa, estão comprando tudo de graça.

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