Buenos Aires, 24 (AE) - O ano, 1940. As tropas nazistas acabavam de ocupar a França, e tudo indicava que a qualquer momento poderiam tentar a invasão da Grã-Bretanha. Praticamente sozinho no mundo, o governo de Winston Churchill tenta conseguir a adesão dos Estados Unidos, que ainda permanecia neutro. Nesse ano de incertezas, a inteligência britânica arma uma delirante manobra para convencer os EUA da ameaça nazista mundial, e escolhe o Uruguai como cenário de sua trama. Londres fez que o governo norte-americano acreditasse que o pequeno e desprotegido país sul-americano poderia ser tomado por forças nazistas espalhadas dentro do Uruguai, a modo de quinta-coluna, e também por tropas vindas de fora.
Segundo os documentos que os britânicos divulgaram na época, a base nazista serviria de trampolim para invasões posteriores da Argentina e do Brasil. Os americanos convenceram-se que essa ameaça era possível, mas não da forma planejada pelos britânicos: a intenção original era causar temor nos EUA, e então oferecer a base naval que possuíam nas ilhas Malvinas como ponto de operações no Atlântico Sul. Em troca desta base e outras na Guiana, Caribe e Terranova, Churchil pretendia conseguir navios de guerra norte-americanos que fortalecessem as defesas britânicas contra os ataques alemães.
Mas em lugar de pensar na utilização das bases britânicas, os EUA preparou planos para instalar uma base no próprio Uruguai, perto de Punta del Este, de onde um milhar de hidroaviões poderiam combater os nazistas no Rio da Prata, e se fosse preciso, bombardear Buenos Aires, na época já conhecida como centro de atividades pró-nazistas na América do Sul.
A investigação foi realizada pelo uruguaio Antonio Mercader, ex-embaixador de seu país na OEA e atual ministro da Educação do governo do presidente Jorge Batlle. O ministro, parente de Ramón Mercader, que assassinou León Trótsky em 1938, descobriu que, influenciados pelo rumor britânico, os EUA começaram a planejar um ataque preventivo, que impedisse a ameaça nazista. Um relatório do FBI fazia assustadoras comparações: as forças armadas uruguaias não ultrapassavam 25 mil homens, enquanto que "a população do Eixo" chegava a 216 mil pessoas, a maioria composta por italianos, alguns poucos milhares de alemães, incluindo também a ínfimos 250 japoneses.
O suposto complô nazista teve suas trapalhadas: o serviço secreto dos EUA indicou cinco cidadãos alemães residentes em Montevidéu como espiões nazistas, e mais tarde descobriu que quatro tratavam-se de judeus alemães, evidentemente anti-nazistas. Segundo Mercader, as confusões sobre aquelas longínquas paragens da América do Sul faziam com que o secretário de Estado dos EUA, Cordell Hull, trocasse com frequência "Paraguai" por "Uruguai".
Os especialistas norte-americanos concluíram que o lugar adequado para montar uma base que impedisse ou pelo menos bloqueasse o avanço nazista na região seria o vilarejo de Laguna Sauce, próximo ao balneário de Punta del Este, que contava com uma lagoa única na região como base para hidroaviões. No total, os norte-americanos planejavam utilizar mil hidroaviões. O plano foi elaborado pelos oficiais da marinha Albert Benjamin e William Brereton, que nunca chegaram a explicar de onde os EUA tirariam tal imensa frota desses aparelhos. A idéia da base não foi abandonada, e em 1942, com um governo argentino que pouco discretamente colaborava com o Terceiro Reich, os EUA especularam mais uma vez desde a base de Laguna Sauce controlar o tráfego de navios pelo Rio da Prata, e se fosse o caso, bombardear Buenos Aires.

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