Os americanos não invejam Bill Gates
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 07 de julho de 1999
Por Louise Nameth e Temma Ehrenfeld, da Newsweek (assinaturas obrigatórias) 
Nova York (AE-NEWSWEEK) - Quando os bobos ganham na bolsa de valores, tornam-se um risco para a saúde de todos os outros. É claro que eles não são realmente bobos.
Eles são amigos e vizinhos que compraram bilhetes premiados (ações em alta) na maior de todas as loterias de Wall Street. Mas por que eles e não nós? Nosso risco: esta inveja pode nos levar a também querer apostar nossos ganhos em bilhetes - e com menos sorte.
Os americanos não invejam Bill Gates ou Michael Dell (pelo menos não muito). Nós sabemos que seus bilhões brotam de enormes esforços pessoais e de uma inovação constante. Em nosso sistema de castas financeiras, mérito pode justificar dinheiro em qualquer quantidade.
Mas os ricos sem mérito nos deixam completamente enlouquecidos. Eles estão guiando suas BMWs para chegar até seus veleiros, em suas casas de praia, só porque compraram ações da Microsoft a 3 dólares. No fundo do seu coração, você pensa, Grrrr, Eu também poderia ter feito isso. O verde - sob nossos olhos e nas carteiras de outras pessoas - põe para fora o pior de nós. Não digo moralmente; digo nossos piores instintos como investidores.
Nos últimos anos, acadêmicos estudaram o comportamento dos investidores, obtendo resultados reveladores. Nós achamos que nossas decisões são racionais. Mas, frequentemente, passamos da esperança ao medo sem chegar a pôr o cérebro para funcionar. (Esperança, não ganância; a diferença é importante.) O mercado em alta intensifica estes sentimentos, principalmente entre investidores que não têm muita experiência, diz Thomas Gilovich, professor de psicologia da Universidade de Cornell e co-autor, com Gary Belsky, de "Por que Pessoas Espertas Cometem Grandes Erros com Dinheiro?" ("Why Smart People Make Big Money Mistakes"*).
Principiantes (descritos como pessoas que não conseguem soletrar a palavra b-a-i-x-i-s-t-a) correspondem à maioria dos proprietários de ações atualmente. A maioria dos consultores financeiros também são novatos.
Se você abrisse seu coração, acharia o seguinte: - Aversão à perda. Nós assumimos muitas dores e riscos extraordinários para evitar a perda (ou evitar admitir a perda), talvez porque esta seja um golpe no ego e na carteira. Nos agarramos às ações em queda, esperando que elas "voltem" ao preço que pagamos - como se houvesse uma lei natural que dissesse que elas deveriam fazer isto. Em um pedaço peculiar da contabilidade mental, colocamos "os prejuízos com papéis" em uma caixa separada, como se eles nunca tivessem acontecido.
Se não vendemos nossas ações perdedoras, o que vendemos? Nossas ganhadoras, é claro - e nós as vendemos prematuramente, por medo de perder os ganhos de capital que já temos. Como resultado, abandonamos o que deveria ter se transformado em ganhos ainda maiores. (Mas vendas prematuras evitam o perigo de termos que bater em nós mesmos se as ações caírem.) A aversão à perda tem mais um efeito perverso. Num mercado em alta onde a inveja reina, assumimos enormes riscos simplesmente pelo medo de ficar de fora. "Se você não arrisca, você sente que ficou para trás", diz Gilovich. ILUSÃO DE CONTROLE - Você pensa que se você está no comando - ou no mouse - coisas ruins não podem acontecer. Você sempre será capaz de intervir a tempo. "As negociações online geram esta tendência", diz Hersh Shefrin, professor de economia financeira da Universidade de Santa Clara, na Califórnia. Pelo fato de podermos acessar informações usadas por profissionais, começamos a pensar que também somos profissionais.
Você tem certeza disto, principalmente se estiver surfando ao redor do mundo tentando embolsar uma fortuna nas Ofertas Públicas Iniciais da Internet. Detestamos admitir que nossos ganhos dependem em grande parte do acaso. EXCESSO DE CONFIANÇA - Faça dois investimentos corretos - um em seguida do outro - e, de repente, você é um guru. Suas ações subiram? É porque você sabe exatamente como administrá-las. Elas caíram? Você teve asar.
"Nós passamos bastante tempo modelando o mundo de uma tal forma que nos faça sentir um pouco melhor sobre nós mesmos", diz Terrance Odean, um professor de finanças da Universidade da Califórnia, em Davis. Odean realizou quatro estudos sobre o comportamento dos investidores (dois com Brad Barber, outro professor de economia financeira da Universidade da Califórnia). Eles foram feitos com base nos registros de uma grande corretora de valores e mostram os tipos de decisão que os investidores tomam por conta própria, com pouca ou nenhuma ajuda dos corretores ou consultores financeiros.
Entre as descobertas: excesso de confiança leva a uma negociação mais frequente, mas as ações que as pessoas vendem não geram resultados tão bons quanto as ações que elas compram. Em média, quanto mais você negocia, menos você ganha. Homens negociam mais que mulheres (boys will be boys) e suas contas não têm uma performance tão boa quanto as delas.
Mas ambos os sexos não se deram tão bem quando se avalia o quanto poderiam ter ganho se tivessem mantido as ações que possuíam no começo de cada ano.
Em geral, estes investidores ganharam dinheiro, diz Odean, o que eles provavelmente atribuem a seu próprio esforço. Mas, de fato, as horas que eles gastaram negociando suas ações diminuíram seus ganhos.
Escolhas medíocres de investimento não estão impressas em nosso DNA.
"Elas são muito mais uma característica dos iniciantes", diz o professor de economia Charles Plott, que reproduz o comportamento do mercado em seu Laboratório de Economia Experimental e Ciências Políticas no Instituto de Tecnologia da Califórnia em Pasadena. "Com a experiência, as decisões tornam-se mais refletidas e a performance aumenta." Mas leva muito mais tempo para ganhar experiência no mundo real do que num laboratório - principalmente se você acredita que é a sua genialidade (e não o mercado em alta) que impulsiona seu sucesso. A maioria dos investidores não mantém o controle sobre o caminho não seguido - e nem mesmo daquele que estão percorrendo. Eles não contabilizam suas ações perdedoras em relação às suas vencedoras para ver qual foi seu sucesso ao longo do tempo. Eles não checam que retornos poderiam ter tido se não tivessem negociado em absoluto.
Sem estas informações, o seu maior aprendizado será soletrado b-a-i-x-i-s-t-a (aquele que joga na baixa da bolsa). O analista de mercado Steve Leuthold, do Leuthold Group de Minneapolis, provavelmente tem razão: "Investidores", diz ele, "comportam-se de maneira sábia a partir do momento em que esgotam todas as alternativas." Por outro lado, pode ser que não haja bobos no mercado, mas só pessoas que acreditam que os outros são bobos. Neste caso, é uma atitude racional comprar ações da AOL a 110 dólares porque você espera vendê-la a um bobo por 150, que espera vender a um outro bobo por 201. Mas antes de pegar no seu mouse, ouça isto: no instante em que não houver mais nenhum bobo, o embuste acaba. E, aí, onde fica a inveja? * 220 páginas. Simon & Schuster. US$ 23.


