Brasília, 31 (AE) - O sertanista Orlando Villas Boas afirmou hoje que sua demissão do cargo de assessor especial da Fundação Nacional do Índio (Funai), na semana passada, encerra de maneira "inglória e grosseira" 48 anos de dedicação à causa indígena. Villas Boas, de 86 anos, foi exonerado do cargo pelo presidente da instituição, Frederico Marés Filho, em um comunicado via fax.
"As pessoas têm de ter ética", lamenta Villas Boas. "Dedicamos boa parte de nossa vida a essa causa pensando que fizemos alguma coisa que preste, mas os novos donos da terra não acharam isso", acrescenta o sertanista, que confessa ter vontade de chorar quando fala sobre o assunto.
Villas Boas foi comunicado de sua demissão no dia 25 de janeiro, quando Marés lhe enviou um fax afirmando que precisava do cargo de confiança. "Lamento muitíssimo comunicar-lhe da real necessidade de ter que dispor do cargo em comissão", afirmou Marés na correspondência. A justificativa do presidente da Funai era de que Villas Boas recebia uma pensão vitalícia concedida pelo presidente Fernando Henrique Cardoso, no ano passado. No fax enviado ao sertanista, ele afirma que a medida é para adaptar a instituição ao Decreto n.º 3.134/99, que determina uma redução em 10% dos gastos com cargos de confiança.
Além do DAS-2 que recebia como assessor, equivalente a R$ 1.300, Villas Boas tinha uma aposentadoria quase nesse mesmo valor e um benefício de R$ 950 do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS). Villas Boas confessa que não se preocupa com o dinheiro, mas se sentiu humilhado pela forma com que foi tratado pelo presidente da Funai. "Quando ele ia assumir o cargo veio almoçar comigo, tiramos fotos juntos e ele me pediu apoio", afirmou o sertanista. "Ele tem o direito de querer o cargo, mas não precisava ser desse jeito."Segundo ele, hoje sua dedicação à causa não merece mais reconhecimento. "Eu e o índio somos uma realidade incômoda".
Solidariedade - Hoje Orlando Villas Boas recebeu diversos telefonemas de apoio, alguns dos Estados Unidos, Inglaterra e França. Mas não conseguiu falar sobre sua demissão com um de seus interlocutores, o cacique Raoni Txucarramãe, que conhece desde criança. "O RaonI me ligou para falar sobre sua viagem ao exterior, mas eu não quis falar a ele que tinha sido demitido", conta . Preferiu ouvir as histórias do cacique, que chama o sertanista de "pai" . "Raoni me contou que deu três tapas na barriga de um homem vestido como mulher", diz Villas Boas, afirmando que o índio se referia ao Papa João Paulo II.
Desde que recebeu a correspondência da Funai, ele não faz outra coisa a não ser tentar esquecer a maneira como foi demitido."Prefiro falar do meu pessoal do Xingu", diz Orlando Villas Boas, nominando todos os grandes chefes indígenas do Parque Nacional do Xingu, um dos maiores do mundo, criado por ele e pelo irmão Cláudio.
Villas Boas também foi um dos criadores da Funai, em 1965, e só não foi seu primeiro presidente porque não quis. Ele preferiu voltar para a floresta, onde teve 253 malárias, todas registradas na Escola Paulista de Medicina."Acho que acabei desmoralizando a malária no País", brinca Orlando, que também passou um ano e meio nas matas com uma perna quebrada. "Ela já estava ficando fina", conta. Mas ele só se medicou por exigência do então presidente Jânio Quadros.
Ultimo seguidor do Marechal Cândido Rondon ainda vivo, Orlando Villas Boas afirmou que a retirada do cargo de assessor - que lhe foi dado pelo então presidente Ernesto Geisel - foi uma surpresa. "Não quis acreditar, pensei que o presidente da Funai iria me ligar", afirma. "Ele foi muito indelicado, ele não sabe o que é uma área indígena, mas eu sei muito bem."
Apesar de tudo, o sertanista não acredita que os índios possam se revoltar com sua demissão. "Hoje eles, além de tudo, são grandes amigos da Funai", observa Villas Boas. "Mas acho que não vão gostar disso."

mockup