Brasília, 26 (AE)- Os organizadores da Marcha dos Cem Mil, em Brasília, comemoraram hoje a manifestação como um "sucesso", em razão, entre outros motivos, de não ter havido incidentes significativos.
Até o fim de outubro, está prevista a realização de praticamente uma manifestação de porte no País por semana, procurando associar a impopularidade do governo detectada em pesquisas de opinião aos partidos oposicionistas.
"Conseguimos dar cara, voz e a nossa bandeira às pesquisas que mostram a impopularidade do presidente Fernando Henrique Cardoso", afirmou o líder do PT na Câmara, José Genoíno (SP). O próximo objetivo, segundo Genoíno, "é ampliar a base do PT, que não pode mais se centrar apenas em sindicatos, mas agregar pequenos agricultores, comerciantes e empresários insatisfeitos e dispostos a radicalizar". O presidente nacional do PT, deputado José Dirceu (SP), anunciou o calendário de pressões sobre o governo para as próximas semanas.
No dia 7, o PT participará do Grito dos Excluídos, organizado pela Igreja Católica em todo o País. No dia 14, haverá a greve nacional dos metalúrgicos. No dia 21, os profissionais de saúde estarão em Brasília. Em 6 de outubro, haverá um movimento dos professores. Em seguida, chega à capital a Marcha dos Sem-Terra. Finalmente, a oposição promoverá, provavelmente em outubro, um "dia nacional de protesto".
Para o líder do PDT na Câmara, Miro Teixeira (RJ) contudo, a oposição tem de precaver-se para que a pressão sobre o governo não seja usada pela base atualmente aliada a Fernando Henrique com o objetivo de manobrar de forma a sair de uma crise política por uma transformação institucional. "O nosso movimento coincidiu no tempo com iniciativas do setor patronal, como a greve dos caminhoneiros e o protesto ruralista; não é só a oposição que está protestando e isto pode caminhar para uma mudança nas regras do jogo contra nós", disse o parlamentar.
O pedetista disse ter visto com preocupação a instalação na Câmara de uma comissão especial para analisar uma emenda constitucional que adota o parlamentarismo. "Para toda uma compressão, existe uma descompressão; como não temos eleições à vista para descomprimir, os que estão hoje ao lado do governo podem adotar o parlamentarismo como estratégia", disse. S Segundo Miro Teixeira, outro sinal disto "é a verdadeira gincana que confederações patronais estão fazendo em exibir pesquisas de opinião onde se mostra uma impopularidade crescente de Fernando Henrique". Para se contrapor a isto, o deputado propõe que os próximos atos da oposição não marquem apenas posição política, "mas apresentem uma agenda concreta de mudanças na área econômica".
A ausência de ocorrências policiais, desde o início do dia, preocupou mais os organizadores da marcha do que atingir ou não a meta de colocar cem mil manifestantes em frente do Congresso. Logo pela manhã, o presidente de honra do PT, Luiz Inácio Lula da Silva, esteve reunido com a cúpula do partido na Câmara para discutir as providências com o objetivo de conter grupos radicais. "Ações destemperadas sempre acontecem e não podemos deixar que colem sobre nós a imagem da baderna", comentou, na saída da reunião, o secretário de Planejamento do Estado do Rio, Jorge Bittar, deputado licenciado do PT.
Durante o ato, Genoíno, Miro Teixeira e outros parlamentares coordenaram as equipes de segurança para a retirada de um grupo de manifestantes que, ostensivamente, provocava os policiais e quase atingiram Lula com uma pedra no momento em que este se dirigia ao palanque. A interlocução com o governo foi feita por Dirceu. "Mantive contato permanente com todo mundo do governo federal e do Distrito Federal; a oposição precisava dar uma prova de maturidade, de paz e ordem", afirmou.
A atuação de Dirceu rendeu elogios até da base governista. "José Dirceu afirmou-se como um interlocutor que leva o bom senso em conta; o tempo todo ele demonstrou a sua preocupação com a segurança porque sabe o valor da democracia", disse o líder do governo no Congresso, deputado Artur Virgílio Neto (PSDB-AM). Entre os oposicionistas, o comportamento de parte da base governista foi elogiado. " O presidente da Câmara Michel Temer portou-se como um estadista e um democrata", disse Genoíno, que também se mostrou satisfeito com o Batalhão de Choque da Polícia Militar. "Vim aqui dar os meus parabéns pelo comportamento exemplar!", disse o líder petista, ao entrar em uma lanchonete em que diversos soldados da PM estavam descansando, depois da manifestação.

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