Washington, 08 (AE) - A International Brotherhood of Teamsters, uma organização sindical que representa 4,1 milhões nos Estados Unidos e no Canadá, lançou uma ofensiva contra a empresa brasileira Cutrale. Está denunciando as péssimas condições sanitárias de uma das duas fábricas de suco da Cutrale
no estado americano da Flórida. E promete investigar a utilização de mão-de-obra infantil pelos produtores de cítricos no Brasil.
As denúncias de falta de higiene, desmentidas pela Cutrale, adquiram maior peso essa semana, depois que a Minute Maid (uma subsidiária da Coca-Cola) recolheu milhares de caixinhas de suco de laranja Hi-C de supermercados e bares em três estados americanos. "As caixas foram recolhidas porque o suco tinha um gosto estranho, e não por razões sanitárias ou contaminação", explicou Hugh Thompson, presidente da Cutrale nos EUA.
Não é o que opinam os sindicalistas. Segundo eles, as condições de trabalho pioraram muito a partir de 1996, quando a Coca-Cola vendeu duas fábricas de suco da Flórida para a Cutrale - entre elas a de Auburndale, que fabrica Hi-C para Minute Maid. "Os trabalhadores viram ratos perto das frutas, além de penas de pombos e baratas", conta Carin Zelenko, da International Brotherhood of Teamsters.
Segundo Gary Gibson, que trabalha na fábrica há 19 anos, as linhas de processamento, que eram limpas regularmente não são mais. "Cutrale diz que sua fábrica é inspeccionada regularmente
mas a prova de que esses controles não tem funcionado e que nossas denúncias eram corretas é o recolhimento dessas caixas de suco", diz Joe Morgan, presidente do sindicato que representa 200 dos 400 trabalhadores da fábrica.
Em dezembro passado, os fiscais do Departamento de Agricultura da Flórida inspecionaram a fábrica da Cutrale e encontraram 30 irregularidades. "Os problemas foram corrigidos", disse Thompson. "Se a situação fosse tão séria quanto dizem os sindicalistas a fábrica teria sido fechada e não foi".
Manobra - Segundo o porta-voz da Minute Maid, Ray Crockett, a campanha dos sindicalistas tem como objetivo melhorar seu poder de barganha nas negociações com a empresa. Os trabalhadores estão em greve desde o dia 9 de janeiro. "Recebemos seis reclamações de que nosso suco estava com um gosto amargo e restringimos esse problema a apenas um lote", explicou Crockett. "Recolhemos as caixas por medida de precaução, mas podemos garantir que não estão contaminadas e que os produtos da Cutrale são de alta qualidade", acrescentou.
A segunda denúncia da International Brotherhood of Teamsters também foi desmentida. Segundo Zelenko, os sindicatos americanos e o Observatório Social - um órgão ligado à Central Única dos Trabalhadores (CUT) - investigarão a Cutrale. A empresa estaria usando laranjas, colhidas por crianças, para fabricar o extrato de suco de laranja que exporta aos Estados Unidos. Esse extrato é usado também nos produtos da Minute Maid.
"Essa denúncia não tem procedência", disse Caio Magri, da Fundação Abrinq. Segundo ele, tanto a Delegacia Regional do Trabalho quanto a Comissão Regional de Erradicação de Trabalho Infantil do setor cítrico de São Paulo comprovaram que há pelos menos dois anos não há trabalho infantil nos laranjais das empresas exportadoras.
"As empresas também tiveram o cuidado de redigir contratos com seus fornecedores, proibindo mão-de-obra infantil", explicou Magri. "Os exportadores sabem que tem pouco a ganhar empregando crianças: economizariam quase nada e perderiam muito no mercado internacional".