Londrina - Aos 4 anos Dorival da Silva perdeu o pai e a mãe. Eles não morreram naquele ano, mas essa é a sensação que ficou. A família, incluindo as duas irmãs mais velhas dele, morava em Londrina e se mudou abruptamente para Curitiba em 1954.
''Meu pai foi levado para o Hospital São Roque, em Piraquara. Minha mãe foi com ele e eu e minhas irmãs fomos deixados no Educandário Curitiba'', recorda.
Estima-se que 40 mil crianças brasileiras viveram o mesmo drama de Dorival: ficaram ''órfãs'' com os pais ainda vivos. A causa da separação precoce foi a hanseníase. De acordo com o coordenador nacional do Movimento de Reintegração das Pessoas Atingidas pela Hanseníase (Morhan), Artur Custódio, a primeira colônia de isolamento para ''leprosos'', como eram chamados os portadores da doença, foi instituída por Dom Pedro II.
Pode parecer distante, mas a prática persistiu até há poucas décadas. ''Nos anos 1930 o governo do Getúlio Vargas instituiu o isolamento compulsório, imposto aos portadores de hanseníase. A cura para a hanseníase foi descoberta na década de 40, mas até 1976 as famílias eram separadas. Há registros que alguns desses locais funcionaram até meados dos anos 80'', afirma.
No procedimento criado pelo governo, o ''isolamento compulsório'', os doentes eram retirados do convívio social de forma repentina e internados em instituições fechadas, conhecidas como ''leprosários'' ou hospitais-colônia.
Os filhos desses brasileiros eram levados para educandários ou orfanatos, onde há relatos de violência, inclusive abuso sexual. ''Há casos de adoção irregular também'', revela Custódio. Pais, depois de liberados dos ''leprosários'', chegaram a ser informados que seus filhos estavam mortos, sem apresentação dos atestados de óbito.
No início deste ano o Morhan começou uma mobilização para levantar quantos ''orfãos da hanseníase'' estão vivos. O objetivo é obter indenizações do governo federal. Segundo os últimos dados do movimento, 4.716 pessoas se cadastraram no Brasil, cerca de 50 no Paraná. Entre elas está Dorival da Silva, que ficou dos 4 até os 18 anos em um educandário em Curitiba.
''Quando saí estava sozinho no mundo, minhas irmãs já tinham casado. Fui para o Fama (Fundação do Menor Aprendiz), aprender uma profissão. Fiquei por lá um tempo e em seguida consegui meu primeiro emprego'', relata. Dorival trabalhou em óticas, e se aposentou recentemente.
Hoje, com 62 anos, ele mal lembra o ano da morte do pai. ''Minha mãe morreu uns seis anos depois que fomos para Curitiba. Acho que foi até de desgosto. Já meu pai morreu nos anos 80, talvez em 1985''.
Dorival lembra que enquanto esteve no educandário visitou os pais em raríssimas ocasiões. ''Eles não deixavam a gente nem chegar perto. Quando minha mãe morreu, eu estava no educandário ainda, não me levaram no enterro, nada. Depois que completei 18 anos e saí de lá visitei meu pai algumas vezes.''
Dorival, que hoje mora em Pinhais, próximo a Curitiba, tem parentes em Londrina. ''Visitei uma tia uma vez. Mas não mantenho contato. Tem algumas coisas que não entendo, não guardo mágoas, mas também não entendo. Por que não ficaram com a gente (ele e irmãs) se estavam nos levando para um educandário?'', questiona.
Apesar da lamentação, Dorival conta que não foi maltratado no educandário.''Minha família fiz lá. Até hoje eu e colegas que foram internados na mesma época nos reunimos pelo menos uma vez no ano, em dezembro'', relata.

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