Buenos Aires, 24 (AE) - Fernando de la Rúa, da oposicionista Aliança, formada pela União Cívica Radical (UCR) e por uma frente de partidos de esquerda (Frepaso), será o terceiro presidente da Argentina - depois de Raúl Alfonsín e Carlos Menem- desde a volta da democracia, em 1983.
As pesquisas de boca urna divulgadas imediatamente após encerrada a votação, às 18h, mostravam De la Rúa com uma média de 51,1% dos votos e Eduardo Duhalde, do Partido Justicialista (Peronista), com 35%.
Mantida essa tendência até a finalização da contagem dos votos, prevista para as 23h00 (00h de Brasília), o líder da Aliança tomará posse no dia 10 de dezembro.
Castigado pelos altos índices de desemprego, pelo crescimento da pobreza e da miséria e pelo aumento da violência, o Partido Justicialista, do presidente Carlos Menem, recebeu uma das mais baixas votações de sua história. Duhalde, que em toda a campanha presidencial não conseguiu o apoio explícito de Menem, recebeu a notícia na sua residência a alguns quilômetros da capital. Colaboradores próximos do atual governador de Buenos Aires informaram que Duhalde encontrava-se deprimido.
O ex-ministro de Economia e mentor do Plano de Conversibilidade argentino Domingo Cavallo aparecia com 11% dos votos, de acordo com as pesquisas de boca-de-urna, o que o transforma na terceira força política do país.
A vitória da Aliança na Argentina e a possível volta dos socialistas no Chile e no Uruguai nas próximas eleições presidenciais nesses países, marcadas para este ano e 2000, respectivamente, foram qualificadas como "uma nova etapa na América Latina" pela candidata a governadora da Província de Buenos Aires, Graciela Fernández Meijide.
O presidente Carlos Menem, que votou na Província de La Rioja, declarou que a vitória de De la Rúa era fruto da vontade do povo argentino. "Creio que chegou a vez da oposição", resignou-se Menem, que vai deixar o poder dez anos e meio depois de ter assumido. Sobre a situação do país, o presidente disse apenas que "a conversibilidade é fundamental para o crescimento econômico da Argentina".
Em tumultuada entrevista concedida à imprensa pouco antes de depositar seu voto em uma escola na região norte de Buenos Aires, De la Rúa afirmou que o período de transição até a sua posse será feita de forma ordenada. "Vamos conversar com todos os níveis do atual governo, o que é normal em uma transição democrática e ordenada", disse o presidente-eleito da Argentina. Indagado sobre as dificuldades que deverá enfrentar no Congresso, onde terá minoria, De la Rúa disse não ver problemas nisso. "Em todos os países, como no Brasil e no Chile, há pluralismo partidário e não por isso existem dificuldades. Não vejo por que tê-las aqui", disse.
Pouco depois de depositar seu voto, o candidato da Aliança comprimentou seus adversários afirmando estar com consciência tranquila sobre o seu papel durante o período da campanha eleitoral e disse que o resultado das urnas estava nas mãos do povo. "Esperem o pronunciamento das urnas, que sempre têm uma mensagem", esquivou- se o líder da Aliança e preferiu não antecipar a vitória que as pesquisas apontavam dois dias antes.
De la Rúa, que reconheceu ser terrivelmente "aburrido" (chato ou pessoa carente de ânimo, de vigor ou energia, sugundo o Dicionário da Real Academina Espanhola), o que não necessariamente o impedirá de exercer a presidência da terceira maior economia da América Latina, voltou a reafirmar que o Mercosul é uma das prioridades da Aliança. Sobre as dificuldades e conflitos comerciais entre o Brasil e a Argentina dos últimos meses, De la Rúa afirmou que serão resolvidas com diálogo.
O camando da campanha da Aliança alugou quatro andares de um hotel no centro de Buenos Aires, onde se concentraram políticos da UCR e da Frepaso. Milhares de pessoas cantavam a vitória de De la Rúa meia-hora antes de anunciadas as pesquisas de boca de urna.

mockup