Brasília, 01 (AE) - Ofuscada pelo PFL, que tomou da esquerda a bandeira do aumento do salário mínimo para US$ 100, a oposição promete fazer barulho no Congresso, depois do carnaval, na tentativa de criar fatos políticos. Agora, a reação pode ser traduzida na palavra de ordem "a reforma das reformas". A idéia é ressuscitar a proposta de uma agenda alternativa na Câmara, aproveitando as contradições do discurso da base aliada do governo. Para que a estratégia surta efeito, o PT, PDT, PSB e PC do B decidiram deixar de lado as divergências que os separam nas principais capitais, por causa das eleições, e unir forças em Brasília.
O esforço concentrado tem sido levado ao pé da letra. "Com o objetivo de oxigenar as relações entre os deputados, propomos um amistoso entre a estrela vermelha (marca do PT) e a pomba branca (do PSB)", escreveu o líder do PT na Câmara, Aloízio Mercadante, no convite endereçado ao colega Alexandre Cardoso, que comanda a bancada do PSB, para um jogo de futebol.
"Acho essa união correta porque não tem sentido levarmos as desavenças regionais para dentro do Congresso", afirmou Cardoso, que é candidato a prefeito do Rio e, provavelmente, vai disputar o cargo com "companheiros" do PT e do PDT.
"É assim mesmo: vivemos entre tapas e beijos", emendou o deputado Miro Teixeira (RJ), líder do PDT. Na prática, a agenda alternativa proposta pelo PT, PDT, PSB e PC do B é, por enquanto, apenas uma carta de intenções. A plataforma de ação abrange temas que vão do salário mínimo à reforma tributária. Mais: os quatro partidos de esquerda resolveram criar um grupo de trabalho para discutir mudanças na lei eleitoral e partidária.
"Queremos forçar um debate sobre o papel do Congresso"
disse Mercadante. "Quinta-feira já não tem deputado na Casa, a reforma tributária que será encaminhada ao plenário está morrendo à míngua e o Orçamento, lançado com estardalhaço, entra em março sem ser votado." Na opinião de Mercadante, também não é possível fixar teto salarial para o funcionalismo público nem auxílio-moradia para juízes federais antes da definição do novo salário mínimo.
"O que acontece é o seguinte: o PFL está fazendo mise-en-scne", resumiu Cardoso, numa referência ao presidente do Congresso, senador Antonio Carlos Magalhães (PFL-BA). "Se ele é tão a favor assim do salário mínimo de US$ 100, por que não põe em votação a medida provisória (MP) que estabeleceu o reajuste para que possamos alterar o texto?"
Mais radical, o pedetista Miro Teixeira - que defende a greve geral dos servidores para forçar o aumento dos salários - vai além. "Ainda vou chegar para o ACM e cantar aquele samba do Chico Buarque: 'Você que inventou a tristeza, agora tenha a fineza de desinventar'", afirmou. Para o deputado José Genoíno (PT), existe um clima de paralisia na Câmara. "Vamos pressionar para mudar isso porque não podemos agir somente na base da reação às propostas do governo", concluiu.