Brasília, 02 (AE) - Os partidos de oposição pretendem mobilizar a população para pressionar a Câmara dos Deputados pela aprovação da denúncia contra o presidente Fernando Henrique Cardoso por crime de responsabilidade, com base na divulgação das fitas com grampos no BNDES. Eles começaram coletando hoje 1000 assinaturas na rodoviária da capital. A mobilização deverá ser concluída em agosto, com uma marcha nacional que pretende reunir em Brasília pelo menos 100 mil pessoas. A iniciativa da oposição acontece um dia depois de o presidente da Câmara, Michel Temer (PMDB-SP), ter rejeitado a denúncia contra Fernando Henrique, e que poderia originar um processo de impeachment do presidente da República.
"Vamos sair pelas ruas para exigir do Congresso Nacional que se auto-respeite e não fique de joelhos diante do presidente da República", disse o presidente de honra do PT, Luiz Inácio Lula da Silva. "O que eu lamento é que o Congresso não se faça respeitar como um poder soberano", completou. Lula disse que a manifestação nas ruas será a imagem política de uma mobilização que espera coletar "milhões" de assinaturas dos brasileiros.
Para o líder petista, a iniciativa da oposição também irá servir para protestar contra o governo de Fernando Henrique, que segundo ele, acabou com a possibilidade de emprego no País. "Esta é uma frente em defesa do País", pregou Lula. "Estamos envolvidos numa crise moral e ética sem precedente na história do Brasil; por muito menos Collor sofreu um impeachment e Nixon renunciou", completou o petista, fazendo uma referência ao ex-presidente americano Richard Nixon.
Segundo Lula, a mobilização popular é a melhor forma de pressionar o Congresso nesse episódio. "Vamos colocar o povo na rua e depois a gente vê o que acontece", avaliou o líder petista, preferindo evitar qualquer expectativa sobre os resultados do movimento. "Afinal, se as fitas não valem para o poder judiciário, elas valem para a moral e a ética", atacou Lula, fazendo uma referência as conversas com o grampo no BNDES.
Já o presidente do PT, deputado José Dirceu (SP), esclareceu que toda a mobilização será feita dentro da legalidade. Ele evitou destacar o movimento como sendo um ato em favor do impeachment do presidente Fernando Henrique. "O impeachment é um decorrência desse processo", disse.
Reunião - A decisão de fazer uma grande marcha nacional foi o principal resultado de quatro horas de reunião entre os presidentes dos cinco partidos de oposição: José Dirceu, do PT; Leonel Brizola, do PDT; Miguel Arraes, do PSB; João Amazonas, do PC do B; e Zuleide Faria de Melo, do PCB. Segundo nota divulgada depois da reunião, este encontro serviu para retomar a Frente de Oposição e constituir uma direção colegiada do grupo, que passará a ter uma sede em Brasília. Segundo a nota, o Brasil está sem rumo e corre risco de sofrer um novo colapso econômico financeiro, enquanto a crise social "assume ares de dramaticidade".
Na reunião, também foi decidida uma ação conjunta dos partidos de oposição contra o projeto de lei da Reforma Política do senador Sérgio Machado (PSDB-CE) estabelecendo a cláusula de barreira, a proibição de coligações partidárias para disputas proporcionais, o voto distrital misto e a fidelidade partidária. Por esse projeto, que conta com o apoio dos governistas, os partidos pequenos ficam ameaçados de extinção. "O governo quer restringir a democracia ao restaurar uma lei autoritária", comentou o ex-deputado Aldo Arantes (PC do B-GO). Segundo ele, caso o governo consiga aprovar essa Reforma Política, os partidos de oposição poderão defender, como alternativa, a criação de uma "frente de partidos", que respeitaria a independência de cada sigla, mas que para justiça eleitoral funcionaria como um partido único.
O ex-governador Leonel Brizola confirmou a suspensão das negociações para a fusão do PDT com o PSB. "O PSB acha que antes de qualquer coisa é preciso impedir o governo de fazer essa legislação partidária", disse Brizola. E alfinetou o governador do Rio de Janeiro, Anthony Garotinho (PDT). "Agora sobre esse tema de fusão partidária é melhor falar com Garotinho que já anda dizendo que será candidato à Presidência da República", disparou Brizola.
O grupo também aprovou uma moção de repúdio contra os atos de violência praticados pelos Estados Unidos na guerra da Iugoslávia.

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