Oposição lançará manifesto à Nação
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quinta-feira, 26 de agosto de 1999
Por Ayrton Centeno 
Porto Alegre, 27 (AE) - A oposição lançará um manifesto à Nação em até 30 dias. "Ele conterá algumas das coisas que entendemos como principais necessidades para o povo brasileiro, especialmente na questão do emprego, do crescimento da economia e da distribuição de renda", disse hoje, em Porto Alegre, o presidente de honra do PT, Luiz Inácio Lula da Silva. Nem ele nem o presidente nacional do PT, José Dirceu, quiseram antecipar o conteúdo do documento. Conforme Lula, o manifesto será firmado pelos partidos de oposição e personalidades da sociedade civil.
"Ele está em fase final de acabamento e, em 20 ou 30 dias, estará pronto", disse Lula. O líder petista explicou que o texto servirá como "instrumento de trabalho" para os partidos, sindicatos, movimento estudantil, proporcionando uniformidade ao discurso da oposição. O manifesto deveria ser um dos assuntos na conversa das lideranças nacionais do partido hoje com o governador Olívio Dutra (PT). Dirceu afirmou que a proposta representará "uma alternativa" não para a esquerda mas para a sociedade.
"Ou o Brasil volta a crescer, gerar riqueza e distribuição de renda ou caminhamos para o caos", disse Lula. "Se o Fernando Henrique Cardoso andasse pelo Brasil iria perceber que a insatisfação é ainda muito maior", avaliou, referindo-se à Marcha dos Cem Mil, que definiu como "um sucesso extraordinário". E prosseguiu: "Não é insatisfação de desempregado, de gente que mora debaixo da ponte. É insatisfação coletiva, de pequenos e médios empresários, de produtores rurais
de quem trabalha no comércio, de toda a sociedade."
Segundo ele, as oposições, com a Marcha dos Cem Mil, conseguiram provar que são capazes de fazer "um protesto na cara do governo e uma coisa muito pacífica". Indagado sobre o pedido de renúncia de FHC, reiterou que o presidente não possui "a grandeza anterior" ou "a humildade" para praticar o gesto. "Eu não faço parte, nem o meu partido, daqueles que pedem a renúncia", disse, lembrando que as oposições entregaram ao presidente da Câmara, Michel Temer, um abaixo-assinado que pede a instalação de uma CPI para investigar a venda da Telebrás e o enquadramento de FHC em crime de responsabilidade. "O que não impede que tenhamos um poder de pressão muito grande para exigir mudanças no rumo das políticas econômicas", ressaltou.
Para Lula, aquilo que o Fundo Monetário Internacional (FMI) está impondo ao Brasil "não deu certo em nenhum país do mundo e não dará no Brasil". Reivindicou investimentos na agricultura, na indústria, na educação, na saúde, na reforma agrária. "O presidente não pode continuar insensível", apelou.
"A realidade do Brasil é muito mais dura do que já foi em qualquer outro período da nossa história", argumentou. "Não é possível, com a grandeza que temos, que sejamos campeões mundiais em desigualdade social", protestou.
Lula criticou o ministro da Fazenda, Pedro Malan, dizendo que ele "talvez não seja brasileiro". Acha que Malan "é muito mais um representante do FMI". Para ele, o ministro só pensa em "pagar juros da dívida externa", perpetuando a dependência do País.
Perguntado sobre a greve geral prevista para outubro disse que a decisão sobre a paralisação cabe à CUT. "Os funcionários públicos estão há cinco anos sem receber reajuste". Dirceu disse que o Grito dos Excluídos reunirá delegações de 2,5 mil cidades em Aparecida do Norte/SP, as manifestações programadas pelos metalúrgicos, pelos trabalhadores sem terra e pelos profissionais da saúde e da educação.
O presidente nacional do PT enfatizou que, depois da greve dos caminhoneiros, do protesto dos ruralistas e da Marcha dos Cem Mil, a insatisfação geral deixou de ser passiva para se transformar em "ação política".


