Oposição dá ultimato a Milosevic
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quinta-feira, 19 de agosto de 1999
Por Vesna Peric-Zimonjic 
Belgrado, 20 (AE-IPS) - Mais de 100.000 pessoas participaram na noite de quinta-feira de uma manifestação nas ruas Belgrado para exigir a renúncia do presidente da Iugoslávia, Slobodan Milosevic.
Tudo indica que a luta pelo poder começou. A oposição mostrou sua força nas ruas e o Partido Socialista, principal integrante da coalizão de governo, declarou-se disposto a convocar eleições antecipadas.
Os organizadores da manifestação de quinta-feira asseguraram que participaram dela mais de 150.000 pessoas, e alguns dirigentes opositores deram um arriscado ultimato a Milosevic, afirmando que ele deve renunciar em duas semanas ou enfrentará a desobediência civil.
Analistas comentaram que o fato de dez dirigentes políticos terem falado à multidão durante o protesto evidenciou os problemas da oposição para estabelecer uma liderança unificada, capaz de derrogar o governo e administrar de imediato o país.
A oposição iugoslava é uma mescla de nacionalistas, monarquistas, social-democratas, economistas a favor do livre mercado, populistas e outros grupos, dos quais o mais popular é o Movimento para a Renovação da Sérvia, encabeçado por Vuk Draskovic.
Esse movimento conta com o apoio da Igreja Ortodoxa e do príncipe herdeiro da Sérvia, Aleksandar Karadjordjevic, que vive no exílio.
A manifestação de quinta-feira foi a maior das promovidas contra o governo de Milosevic desde 1996-1997, e foi organizada pelo "Grupo 17" de economistas independentes.
O grupo pede o estabelecimento de um governo de transição e reformas que implementem uma economia de livre mercado, que considera necessárias para a integração do país na economia mundial.
A economia iugoslava foi destruída este ano pelos dois meses de ataques aéreos da Otan, mas antes disso já sofria um grave retrocesso e havia sido seriamente afetada por guerras e sanções internacionais.
"O povo não recuará até que as mudanças sejam implementadas. Milosevic deve sair para que a Sérvia seja livre. Desta vez iremos até o fim. É ele ou nós", disse o dirigente oposicionista Zoran Djindjic à multidão, que gritava "Fora Slobo" e "bandidos vermelhos", numa referência ao Partido Socialista.
Djindjic deu a Milosevic duas semanas para renunciar antes que "toda a Sérvia se levante".
"Caso contrário, a Sérvia sairá às ruas, não só em Belgrado mas em todas as cidades, em 50 cidades no mesmo dia.
"Todos sairemos às ruas com uma única mensagem: ficaremos até que eles se vá. É Milosevic ou a Sérvia, não pode haver uma terceira opção", acrescentou.
Os Estados Unidos e a União Européia decidiram que não enviarão ajuda humanitária ou para a reconstrução da Iugoslávia enquanto Milosevic continuar no poder. Além disso, Washington e Londres aumentaram seu apoio econômico aos partidos e meios de comunicação que buscam a queda do presidente.
Os partidos opositores culpam os dez anos de governo de Milosevic pelo estado da economia, o isolamento do país e as guerras perdidas na Eslovênia, Croácia, Bósnia e Kosovo desde 1991, quando começou a desintegração da antiga República Federal da Iugoslávia.
Os socialistas se anteciparam aos acontecimentos na terça-feira, ao anunciar que estavam dispostos a convocar eleições antecipadas este ano, e que apresentaria uma proposta neste sentido ao parlamento na semana que vem.
"Não temos medo de eleições, são os outros que a temem", afirmou na quinta-feira Ivica Dacic, um porta-voz do Partido Socialista.
O oposicionista Draskovic, proprietário de uma emissora de televisão, também pediu por eleições antecipadas, mas acrescentou que deveriam ser realizadas sob novas leis, entre elas uma que garantisse "a liberdade de imprensa".
"Estamos numa prisão, porque no comando do Estado federal e da República da Sérvia existem pessoas que chegaram a esta posição de forma acidental, sem que isso dependesse da vontade de nosso povo, que está totalmente isolado do mundo", afirmou.
Essas pessoas "devem tornar-se passado político para que a Sérvia possa ir para o futuro", acrescentou.
Entretanto, Draskovic foi vaiado pela multidão na quinta-feira quando disse que era necessário promover um acordo político com a coalizão governista (integrada pelo Partido Socialista, a Esquerda Iugoslava Unida e o Partido Radical Sérvio) para se estabelecer um governo de transição.
"O governo de transição deve ser formando mediante um acordo político entre pessoas responsáveis, da oposição, de um lado, e dos partidos governistas, do outro", opinou, apesar de ter admitido que "grande parte da oposição não quer este tipo de governo".
A manifestação de duas horas promovida na frente do prédio do parlamento federal terminou sem incidentes. Uma bomba de gás lacrimogêneo foi jogada no início no meio da multidão, mas não provocou distúrbios, e a presença da polícia foi discreta.
A televisão estatal referiu-se à manifestação em seu noticiário noturno, e disse que "a manifestação da Otan acabou sendo um fracasso".
As emissoras estatais de rádio e televisão haviam destacado nos dias anteriores que a manifestação iria coincidir com o aniversário do presidente dos Estados Unidos, Bill Clinton, e descreveu os dirigentes da oposição como "mercenários da mesma gente que bombardeou selvagemente nosso país".
Os organizadores do ato disseram que a data foi escolhida para coincidir com a festividade da Transfiguração de Cristo, celebrada pela Igreja Ortodoxa, esperando que ela representasse um símbolo da transformação da Sérvia.
Todos os que pedem um governo de transição "querem que a Kfor (a força militar liderada pela Otan em Kosovo) se transfira para Belgrado" e "perdoam Clinton e seus aliados de todos os crimes cometidos em nosso país", disse o vice-primeiro-ministro sérvio Milovan Bojic na quinta-feira.
Dacic, por seu lado, assinalou que o Partido Socialista pensa que existem coisas mais importantes a fazer do que promover eleições antecipadas, mas acrescentou que estava "pronto para convocá-las este ano" caso a oposição queira. As eleições estão originalmente marcadas para o ano 2001.
Uma pesquisa promovida no início de agosto pelo instituto independente Partner, entre 1.000 personas de 32 cidades da Sérvia, indicou que os diversos partidos de oposição obteriam 40% dos votos, e a coalizão governista ficaria com 24%.
O partido de Draskovic foi o que recebeu o maior apoio entre os entrevistados, com 18,1%. O Partido Socialista ficou com 13 7%.


