Paris, 17 (AE) - O vazamento de informações sigilosas do relatório médico sobre a saúde de Augusto Pinochet está-se transformando num escândalo político na Espanha, explorado durante a atual campanha legislativa pela oposição de esquerda.
Os socialistas de Joaquim Almunia, o sucessor de Felipe González na direção do PSOE (Partido Socialista Operário Espanhol), estão responsabilizando diretamente o governo conservador de José Maria Aznar de ser o maior interessado em que não ocorra a extradição do ex-ditador chileno de Londres para Madri, contrariando o desejo da Justiça espanhola.
Antes mesmo de o dossiê médico de Pinochet ter chegado às mãos do juiz Baltasar Garzón, seu teor já era de conhecimento de dois importantes jornais conservadores espanhóis, o ABC e El Mundo, que por coincidência apóiam as posições do PP, o Partido Popular, atualmente no governo. Isso explica a resposta irônica do porta-voz do governo, Jose Pique, quando indagado sobre a responsabilidade das autoridades espanholas no vazamento: "A meu ver, trata-se de um belo exemplo de jornalismo investigativo."
Desde o início do processo Pinochet, o governo Aznar não esconde seu constrangimento com o rumo dos acontecimentos, diante dos importantes interesses econômicos espanhóis no Chile. Aznar, entretanto, nada podia fazer, pois sua ação poderia ser confundida com uma tentativa de entravar o trabalho da Justiça.
Mais recentemente, quando o ministro do Interior britânico, Jack Straw, baseado nas conclusões do relatório médico optou pela não extradição de Pinochet, o ministro do Exterior espanhol, Abel Matutes, foi o primeiro a anunciar que a Espanha não pretendia recorrer da decisão, considerando qualquer apelação "inútil e impossível".
Outra coincidência assinalada é que ambos os jornais, El Mundo e ABC, se apressaram em tirar a mesma conclusão do relatório médico divulgado: "Sofrendo deteriorações intelectuais, Pinochet não tem condições de participar de seu próprio processo", uma interpretação na linha do que desejava o governo de Madri para evitar a extradição. Isso ficou claro com as declarações posteriores de Matutes: "O processo de extradição deve ser interrompido porque o relatório é claro, e mostra de forma indiscutível a incapacidade do general de submeter-se a um processo."
Até hoje à tarde, Garzón ainda não havia tido acesso ao relatório, que estava em fase de tradução pela Audiência Nacional, apesar de seu teor já ter sido publicado pelos jornais. Ele foi o primeiro a pedir a liberação do documento, mas o Executivo protelou o envio do pedido a Londres.

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