OPERAÇÃO TENTÁCULOS - Advogado foragido afirma ter sido envolvido em crime por saber demais
Em entrevista à FOLHA, investigado critica operação
Curitiba- Depois de ficar 92 dias foragido da Justiça, o advogado criminalista Peter Amaro de Sousa reaparece e, em entrevista à Folha, critica o trabalho de investigação realizado durante a Operação Tentáculos. As investigações iniciaram no dia 28 de janeiro, com a morte do então major Pedro Plocharski, que comandava interinamente o 13º Batalhão da Polícia Militar (BPM).
Nas investigações feitas pela Central de Inteligência da Secretaria de Estado de Segurança Pública (Cisesp) e Polícia Federal (PF) foram verificadas ligações entre policiais militares, traficantes e quadrilhas especializadas em extermínio e que poderiam ter sido uma das causas do assassinato do major conhecido por ser de linha dura e não tolerar desvios de conduta. As investigações resultaram inicialmente no pedido de prisão de 27 pessoas.
Nas diligências policiais, outras nove pessoas foram presas. Apenas não foi cumprida a prisão do suposto traficante Sky (o nome não tem sido divulgado oficialmente) e de Sousa que tem se escondido em cidades diferentes para evitar a pressão policial. Na sequência das investigações, os dois foragidos mais procurados pela polícia no Paraná P. G. P. M. e Samir Skandar foram presos. O processo, que hoje está sob sigilo de Justiça, não traz claramente os nomes dos mandantes da execução do então major (promovido para tenente-coronel após sua morte). Os autores seriam policiais militares, alguns já excluídos.
Sousa aparece como sendo o advogado de quase metade dos PMs e supostos traficantes que foram presos. Em conversas telefônicas, o advogado apareceria conversando com eles (os clientes) sobre a morte do major Plocharski, dando a entender que sabia quem era o mandante do assassinato. Mesmo foragido há 92 dias, o advogado diz não temer a prisão. Com 48 anos e seis filhos, Sousa afirma que quer evitar o constrangimento das algemas e os holofotes da imprensa.
Alguns quilos mais gordo (Sousa toma remédios para controlar o impulso de comer nas horas de tensão), o advogado falou sobre o embasamento técnico de sua prisão e tentou explicar as conversas degravadas no processo criminal. Ele marcou encontro com a reportagem da Folha depois de 15 dias de negociação por telefone. O jornal foi escolhido por ser de sua cidade Natal: Londrina. A entrevista foi numa chácara na Região Metropolitana de Curitiba. Sousa apareceu na hora marcada e ficou o tempo suficiente para esclarecer as principais dúvidas da reportagem sobre o suposto envolvimento dele com o crime organizado.
Folha O senhor alega inocência e diz que nunca participou de qualquer delito. Como explica o pedido de prisão durante a Operação Tentáculos?
Sousa A operação tsunami (nome dado pelo advogado) colocou muita gente inocente misturada pela onda gigantesca e arbitrária dos que estavam investigando os crimes cometidos pelos supostos envolvidos na morte do major do 13º. Eu sou prova disto. Nunca teria tido qualquer motivo para matar ou mandar matar. Não sou traficante. Não sou usuário de drogas. Eu fui envolvido por saber demais.
Folha Isso não embasaria uma denúncia.
Sousa No dia em que a Operação Tentáculos foi desencadeada, liguei para o delegado que comandava a operação (Luiz Alberto Cartaxo de Moura) e perguntei porque eles estavam querendo me prender. O delegado me disse que queriam que eu colaborasse porque sabia demais. Eu advogo para a maioria dos que foram presos na operação. Mas não participei de crime algum. O que eu sabia tinha obrigação de manter sob sigilo profissional. Ele (o delegado) pediu que eu me apresentasse. Eu resolvi fugir para evitar constrangimentos e algemas.
Folha Como soube da operação? O senhor recebeu informações privilegiadas?
Sousa Fui informado que estavam atrás de mim quando a casa da minha ex-mulher foi invadida por policiais federais. Eles erraram. Acharam que ainda morava com ela e meus filhos. Mantiveram todos como reféns por horas. Acharam que eu iria aparecer para livrar meus filhos do sofrimento psicológico.
Folha Fecharam o cerco na cidade para encontrar todos os procurados pela operação. Como fugiu e onde ficou durante todo esse tempo?
Sousa Eu saí da cidade de carro. Não fui eu quem dirigiu o carro. Estava escondido. Ninguém percebeu nada. Não paramos em nenhuma barreira policial. Estive em estados diferentes, cidades diferentes. Não podia voltar para Curitiba porque sou conhecido. Viver escondido tem sido um tormento...
Folha Se o senhor nada tem a ver com as denúncias, por que ainda não se entregou?
Sousa Vou fazer isso até o final da semana que vem. Esperei todo esse tempo para tentar conseguir a revogação da minha prisão. Ela será analisada essa semana. Se não sair, irei me entregar. Mas com a Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) ao meu lado para que me sejam garantidas as prerrogativas que tenho, como advogado. Vou tentar também uma prisão domiciliar.
Folha O senhor falou sobre arbitrariedades. Que tipo de arbitrariedade teria sido cometida contra o senhor?
Sousa Reviraram meu escritório. Tive meus documentos devassados. Processos que eram de clientes foram levados. Arquivos confidenciais, com fotografias confidenciais. Parte de computadores. Não preservaram minha família. E o pior: a polícia federal atuou num crime que se tivesse cometido seria de competência da Polícia Civil. Fico me perguntando: será que o Paraná não tem polícia?
Folha Falam que o senhor sabe demais. Se sabe, não teme pela sua vida?
Sousa Corro risco de morrer, sei disso. Dentro da cadeia ou fora dela. Vou lutar para provar minha inocência. Não teria que fazer isso, mas vou fazer. Não entendo porque um mandado de prisão contra mim. Não ofereço risco, estou desarmado, não sou bandido. Não me apresentei ainda por questão de segurança. Vou me apresentar, quando me for garantida minha vida.
Folha O senhor foi acusado de tentar violar testemunhas que viram a morte do major Plocharski. O senhor não teve contato com nenhuma testemunha?
Sousa Tive. Mas não a testemunha que foi citada nos autos. Não conheci essa testemunha. Fui até o local falar com uma testemunha para buscar esclarecer os fatos. Meus clientes alegavam inocência. Eu quis saber quem eram os reais assassinos do major. Estava cumprindo meu dever.





