Brasília, 02 (AE) - Um servidor da Novacap, empresa de urbanização do governo do Distrito Federal (DF), morreu hoje e dezenas de manifestantes ficaram feridos, dois deles cegos de um olho, em operação da Polícia Militar (PM), em Brasília, para dispersar protesto de servidores públicos na entrada da Novacap.
No início da noite, o diretor do Hospital de Base, Aluísio Toscano, disse que o corpo da vítima tinha três perfurações, "provavelmente tiro ou estilhaço de metal". A polícia nega ter havido disparos com munição real.
Pelo menos 500 servidores bloqueavam os portões de acesso à empresa, sentados no asfalto, quando a Tropa de Choque avançou, por volta das 13h, disparando tiros de borracha e bombas de efeito moral e gás lacrimogêneo. A desocupação foi executada por ordem do secretário da Segurança Pública, Paulo Castelo Branco, presente no local.
O servidor morto foi o servente da Novacap José Ferreira da Silva, de 33 anos. Claudio Cesar Cabral Gomes e Jesus Ferreira Machado, atingidos no olho esquerdo, perderam a visão e à noite seriam submetidos a cirurgia para a colocação de prótese. Da mão de Osmar de Jesus Xavier foi retirado fragmento metálico também em cirurgia e o paciente deverá ter alta amanhã.
Já Robson da Cruz Silva, segundo Toscano, recebeu um "tiro ou estilhaço metálico" no braço esquerdo. Os médicos optaram por fazer apenas um curativo e deixar o paciente em observação até amanhã, quando será decidida a realização de cirurgia.
Mas relatório médico feito pelo hospital indica que Cruz Silva e Inácio Alves da Silva levaram tiro.
A operação policial foi criticada pelo presidente Fernando Henrique Cardoso. "É preciso rever os procedimentos em episódios de confronto para evitar desastres como este", declarou FHC, por meio do porta-voz Georges Lamazire. "Nesse caso, claramente, saiu-se da normalidade."
A Comissão de Direitos Humanos da Câmara divulgou nota pedindo o afastamento dos responsáveis pela "repressão" e também a punição dos que se "excederam, praticando os atos criminosos".
Castelo Branco disse que a causa da morte só será esclarecida após a autópsia no Instituto Médico-Legal (IML), marcada para amanhã. O secretário descartou a hipótese de deixar o cargo.
Segundo ele, dez manifestantes foram presos, incluindo o vice-presidente do Sindicato dos Servidores e Empregados do Governo do DF (Sindser), Cícero Rola.
Castelo Branco negou que tenha havido disparos com munição real, apesar de depoimentos contrários de manifestantes. Um caminhão que estava no local apresenta perfurações na lataria.
A ação da polícia, que chegou a perseguir servidores no interior da empresa, será investigada por inquérito policial militar (IPM) e pela Polícia Civil. O Ministério Público foi chamado para acompanhar o caso.
Desde as 7h, o grupo de manifestantes estava reunido em assembléia geral na frente da empresa reivindicando reajuste salarial e defendendo cláusulas sociais em seus contratos de trabalho. Uma audiência com o governador Joaquim Roriz (PMDB) foi pedida e recusada, segundo sindicalistas.
Nota do governo alega que a agressão partiu dos manifestantes contra um servidor da Novacap e um PM - que teve a mão fraturada. "Diante do agravamento da situação, não restou à direção da companhia outra alternativa que a de adotar as medidas legais cabíveis para restabelecer a ordem", sustenta a nota, registrando que a PM agiu com "serenidade e eficiência", respeitando "preceitos democráticos".
Guerra - "Foi uma operação de guerra contra pessoas desarmadas", rebateu o diretor da Central Única dos Trabalhadores (CUT) no DF, Francisco Paulo Nogueira Filho, integrante da comissão de negociação.
Para o secretário, o "rigor" da polícia faz parte do programa Segurança sem Tolerância, criado por Roriz. "Não admitimos nenhuma infração aos princípios legais", justificou o secretário, para quem a ação buscou garantir o direito de ir e vir e proteger o patrimônio.
Cerca de 800 servidores, segundo sindicalistas (500 para a PM)
participaram da assembléia geral. Ao receber o ultimato para desocupar a entrada, onde permitiam apenas a passagem de quem estava a pé, os manifestantes decidiram permanecer no local.
Para Castelo Branco, no momento da ação todas as possibilidades da negociação, iniciada às 8 horas, estavam esgotadas. "A manifestação era para o confronto", concluiu o secretário, que esteve acompanhado do secretário de Obras, Tadeu Filipelli.
Segundo o sindicalista Nogueira Filho, os feridos durante a operação foram levados ao hospital por motoristas abordados pelos manifestantes na avenida em frente da empresa. "Os policiais não paravam para ajudar", afirmou Nogueira Filho. O diretor da CUT/DF disse que sindicalistas foram retirados à força do caminhão de som do Sindser e agredidos por policiais durante o tumulto.
No início da ação da Tropa de Choque, policiais militares encontravam-se entre os manifestantes. "Era tanta bomba que até os PMs tiveram de sair correndo", contou Nogueira Filho. O comandante do 4º Batalhão da PM, coronel Paulo Cesar Thimotheo, disse que chegou a cair no chão durante o tumulto, no qual muitos manifestantes foram pisoteados. (Colaboraram Isabel Braga e Chico Araújo)

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