Operação assusta brasileiro
Ney de SouzaSIMULAÇÃO‘‘Abud’’, na portaria do prédio onde mora, mostra como agentes teriam chegado até a porta de seu apartamentoMesmo tendo nascido no Brasil, um neto de árabes, de 45 anos, diz ter sido procurado irregularmente em seu apartamento, em Foz do Iguaçu, por agentes da Polícia Federal durante a Operação Rede Brasil.
Ele disse que a abordagem da PF deixou a sua família traumatizada. A sua condição para conceder entrevista à Folha foi preservar seus dados pessoais. Para facilitar a leitura, foi adotado o pseudônimo ‘‘Abud’’.
Folha – Como os policiais chegaram até o senhor?
Abud – Era sábado de manhã, entre 9 e 10 horas, quando o interfone tocou. Eles (agentes) perguntaram por uma pessoa que tinha nome árabe. Disse que não morava e não conhecia ninguém com aquele nome. Pediram para que eu abrisse o portão. Respondi que não e desliguei. Mesmo que alguém se identifique como um policial, a gente não sabe quem é. Poderia ser um assaltante ou um louco. Não passou dois minutos e tinha um cara metendo o dedo na minha campainha. Abri a porta de sopetão.
Folha – Como eles entraram no seu prédio e o que pediram ao senhor?
Abud – Depois que abri a porta, disseram que outro morador havia franqueado a entrada. Considerei uma invasão de condomínio. Pedi explicações e comecei a bater boca. A minha mulher ficou nervosa e começou a chorar. Depois, procuramos esquecer o que aconteceu. Mostrei a Carteira de Identidade só para não me incomodarem mais. Quando eles viram que eu sou brasileiro, nem deram muita atenção. Não pediram desculpas, nem nada, e saíram. Isso estragou o meu dia.
Folha – Na sua opinião, como a PF deveria ter agido?
Abud – Eles tinham uma lista com nomes e endereços. Provavelmente vieram atrás de algum antigo morador. Se essas operações são sistemáticas, antes a PF deveria atualizar seus cadastros e não ir batendo na casa de cidadãos honestos e trabalhadores. Dar de cara com um policial batendo na sua porta assusta. A atitude correta seria ficar na porta do prédio esperando alguém chegar ou sair na rua, que é de domínio público. A minha crítica não é aos agentes, que talvez não tenham sido orientados corretamente, é a forma de atuação da PF.

AS CAUSAS DA CRISE
- A operação – A Operação Rede Brasil foi deflagrada pela Polícia Federal após uma reunião do Mercosul, onde foi feito um acordo tripartite entre Brasil, Paraguai e Argetina. O acordo prevê ações conjuntas similares todos os meses, o que não vem ocorrendo
- Objetivo – Identificar estrangeiros clandestinos nesses países
- Quando foi realizada – Em Foz do Iguaçu, em abril de 98
- Quem participou – Cerca de 100 agentes federais

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