A ONU premiou ontem em Nova York cinco pessoas por seu ‘‘valor e determinação’’ em promover os direitos humanos, entre elas o brasileiro José Gregori e o ex-presidente americano Jimmy Carter. Este prêmio, outorgado a cada cinco anos, foi estabelecido em 1966 pela Assembléia Geral para honrar ‘‘pessoas que deram contribuições extraordinárias para a promoção e proteção aos direitos humanos e as liberdades fundamentais’’ afirmados na Declaração de Direitos Humanos adotada há 50 anos.
Gregori, que recebeu o prêmio das mãos do Secretário-geral Kofi Annan, lembrou que ‘‘luta pelos direitos humanos há 50 anos’’. Mas ‘‘neste prêmio vejo menos um reconhecimento individual do que um estímulo para o trabalho que estamos fazendo no Brasil’’, disse numa coletiva após receber a distinção.
Gregori - que quando era estudante na Universidade de São Paulo, nos anos 60, se uniu às organizações que combateram a ditadura militar brasileira - disse que agora é ‘‘um responsável do governo’’.
Explicou que dirige a Secretaria Nacional para os Direitos Humanos, uma entidade criada há 4 anos, para ‘‘fazer dos direitos humanos uma das mais importantes políticas públicas’’.
Os outros premiados são Sunila Abeyesekera do Sri Lanka, Angelina Acheng Atyam de Uganda, Anna Sabatova da República Checa, que receberam o prêmio das mãos de Annan. No entanto, o ex-presidente Carter não esteve presente na cerimônia da ONU, enviando apenas um representante.
A professora Luzia Canuto Pereira, de 30 anos, que teve o pai e dois mortos na luta pela posse da terra no sul do Pará, recebeu ontem, em Paris, o prêmio comemorativo dos 50 anos da Declaração Universal dos Direitos Humanos, instituído pelo governo francês. Ela foi a única brasileira a receber a premiação pela batalha que vem travando contra a impunidade dos assassinos e mandantes da morte de seu pai, o sindicalista João Canuto, morto com 18 tiros em 1985, e de seus irmãos, Paulo e José, em 1990, executados por pistoleiros após serem presos e algemados.
As mortes aconteceram no município de Rio Maria, onde Luzia vive com seus dois filhos de 5 e 10 anos, com o marido, Carlos Cabral, sobrevivente de dois atentados à bala, além de um irmão, Orlando Canuto, que já escapou de várias emboscadas de pistoleiros. Os processos estão parados no Tribunal de Justiça do Pará. Apenas um policial militar foi condenado a 50 anos de prisão. Os demais acusados estão foragidos.
A própria Luzia revelou em Paris, durante entrevista a jornais e redes de televisão da Europa e Estados Unidos, que vem sofrendo ameaças de morte. ‘‘Telefonam sempre para a escola dizendo que eu devo tomar cuidado’’, contou a professora.
Saudada em Paris por Danielle Mitterrand, viúva do ex- presidente francês François Mitterrand, que a classificou como uma ‘‘guerreira dos direitos humanos no Brasil’’, Luzia credita seu prêmio a dois motivos. ‘‘O primeiro é que eu sofri muitas violações em meus direitos, tive minha família morta e os criminosos continuam impunes no Pará, mas o maior motivo é que eu não fugi e nem fugirei da luta por Justiça’’.
Desde junho passado, Luzia anda pelas ruas do sul do Pará com um segurança contratado pelo Comitê Rio Maria de Direitos Humanos, que ela ajudou a fundar.

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