ADIS-ABEBA, Etiópia, 14 (AE-AP) - A vida de milhões de etíopes famintos pode ser salva se os países doadores responderem rapidamente aos pedidos de ajuda alimentar, afirmou hoje (14) a enviada especial da ONU ao Chifre da áfrica, Catherine Bertini.
Como chefe do Programa de Alimentação Mundial (WFP) da ONU, Bertini disse ser necessário reforçar o oferecimento de alimentos à região além das cifras inicialmente estimadas para evitar-se uma catástrofe, já que cresceu o número de pessoas ameaçadas pela falta de comida devido à seca.
"Como as chuvas não chegaram", explicou Bertini, "dentro de algumas semanas teremos de fazer novos pedidos. Ainda não sabemos quanto (alimento) mais será pedido ...mas imagino que serão mais de 100 mil toneladas." E acrescentou: "Milhões de vidas poderão ser salvas se a comunidade internacional puder oferecer uma contribuição rápida e generosa."
Em janeiro, o governo etíope apelou para o envio de emergência de 836.800 toneladas de alimentos para 7,7 milhões de pessoas, enquanto a WFP concordou em pedir 250 mil toneladas. Bertini disse que uma segunda cota de contribuição alimentar precisa ser avaliada e encaminhada. Além da comida, ela disse que 60 milhões de etíopes precisam de remédios e equipamentos para purificação da água.
Uma organização privada de ajuda sediada na Inglaterra, a Oxfam, considerou hoje a situação etíope como "uma catástrofe à espera de acontecer" e disse que tanto o governo como os doadores internacionais falharam no manejo dos problemas básicos de desenvolvimento e segurança alimentar da região.
Um porta-voz da organização disse que "embora a seca possa ser inevitável, a fome não é. Ela se deve a problemas de maior peso, como a pobreza".
Bertini disse estar satisfeita com o resultado de suas conversações de ontem com o primeiro-ministro etíope, Meles Zenawi, mas continua preocupada porque ele descartou o uso de dois portos da vizinha Eritréia para o transporte da ajuda alimentar. A Etiópia, sem saída para o mar, trava há 23 meses um conflito com a Eritréia, e isso impediu as agências de ajuda de enviar sorgo, trigo, milho e óleo vegetal através do Mar Vermelho ou dos portos eritreus de Assab e Massawa.
Até maio de 1998, quando se iniciou o conflito, 75% da ajuda alimentar era enviada aos etíopes através do porto de Assab. Agora, as organizações humanitárias são forçadas a usar os portos de Djibuti, no Golfo de Aden, e de Berbera, no norte da Somália. Muitos especialistas consideram pouco provável que esses dois portos tenham capacidade para receber as 120 mil toneladas de grãos a serem enviadas nos próximos meses embora que, para o pesar de Bertini, outros especialistas tenham convencido o primeiro-ministro etíope do contrário.
Bertini assegurou, contudo, que o estado de guerra na região não afeta a disposição da ONU de ajudar a Etiópia. "A primeira responsabilidade é manter as crianças vivas", ela disse,"e não há motivo no mundo para deixar qualquer criança morrer se há comida para que ela viva. Não podemos discriminar as crianças só porque não concordamos com o que seu governo está fazendo."
A dirigente do Programa de Alilmentação Mundial continuará sua viagem pelo Chifre da áfrica, que a conduzirá também à Eritréia, Djibuti e Quênia, para avaliar as necessidades de outras 12,4 milhões de pessoas ameaçadas pela falta de alimentos. Mas não visitará a Somália, cuja população está sofrendo as mesmas privações.

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