ONU denuncia falta de fundos para ajuda humanitária
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sexta-feira, 13 de agosto de 1999
Por Farhan Haq 
Nações Unidas, 14 (AE-IPS) - A Organização das Nações Unidas (ONU) precisa de US$ 796 milhões este ano para oferecer ajuda humanitária a mais de 12 milhões de pessoas na áfrica, mas até agora os países doadores entregaram apenas US$ 352 milhões.
Angola e Somália, entre outros países africanos, necessitam com urgência dessa assistência, denunciaram funcionários da ONU. "O problema é que se limitaram os programas de ajuda humanitária e às vezes não se pode dar assistência para salvar vidas em situações de emergência", declarou o porta-voz da ONU, Fred Eckhard.
A falta de dinheiro afeta o trabalho da ONU em Angola, onde estima-se que morrem 200 pessoas por dia desde o reinício da guerra civil, e na Somália, onde um milhão podem morrer de fome, advertiu Sergio Vieira de Mello, subsecretário-geral da ONU para Assuntos Humanitários. O pior caso é o do Congo, para o qual a ONU não recebeu nenhum dólar dos países doadores, informou Vieira de Mello.
A indiferença dos doadores em relação à áfrica deve-se ao fato de as crises desse continente serem menos visíveis para o resto do mundo, e é onde ocorre uma "instabilidade crônica", sustentou Vieira de Mello. Outros funcionários agregaram que Kosovo concentra toda a atenção da comunidade internacional.
A resposta foi imediata quando se pediram US$ 265 milhões para Kosovo, mas o Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados (Acnur) só recebeu este ano 60% do orçamento de US$ 137 milhões correspondentes à áfrica, disse ao Conselho de Segurança a titular do organismo Sadako Ogata. "Existe uma notória disparidade na assistência fornecida", observou Ogata.
"Os doadores nos asseguraram que seus aportes dos últimos meses para solucionar a crise de Kosovo eram adicionais" ao previsto, mas a concentração da atenção nessa província iugoslava poderia dificultar com que os Estados contribuíssem na resolução de outros conflitos da mesma importância, afirmou.
Aproximadamente três milhões de civis angolanos são vítimas das lutas entre o governo e a União Nacional para a Total Independência de Angola (UNITA).
Os funcionários de organismos humanitários da ONU procuram enviar carregamentos de alimentos por avião para evitar uma fome massiva nesse país, explicou Ogata. Em alguns centros povoados como Malange, calcula-se que morram quatro crianças por dia devido à fome, enfermidades curáveis e outras consequências da guerra, constatou Vieira de Mello.
Outros países da áfrica que precisam de ajuda com urgência são Burundi, Congo, República Democrática de Congo (ex-Zaire), Eritréia, Etiópia, Guiné Bissau e Serra Leoa. Mas na última década caiu em todo o mundo a assistência oficial para o desenvolvimento e financiamento para a ajuda humanitária.
A assistência oficial para o desenvolvimento dos 21 principais doadores caiu 30% desde 1991, até alcançar US$ 48 bilhões em 1997, comentou Vieira de Mello. "Isto não reflete a vontade de quem paga os impostos", agregou o subsecretário-geral. Os habitantes dos principais países doadores que se preocuparam com o sofrimento dos civis em zonas de conflito como o Sudão exigem mais ajuda humanitária, assinalou.
No entanto, é provável que a assistência à Africa padeça do "efeito Kosovo", já que os Estados Unidos e a União Européia (UE) concentrarão sua ajuda nessa província iugoslava durante os próximos meses. A Dinamarca anunciou no mês passado que reduzirá em 23% no ano 2000 seu aporte ao Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD), devido à ajuda prestada em Kosovo.
Essa decisão faz com que a áfrica pague por Kosovo, já que as nações africanas se verão prejudicadas pela perda de financiamento do PNUD, declarou o administrador do organismo Mark Malloch Brown. "Trata-se de uma tendência perigosa, e espero que os demais países não adotem esta postura", manifestou Malloch Brown.


