Pristina, 28 (AE-AP) - No primeiro retorno organizado de refugiados de Kosovo, escoltas da ONU levaram para casa mais de 300 albaneses étnicos nesta segunda-feira (28), alguns para vilarejos completamente destruídos pelos sérvios.
Enquanto isso, guerrilheiros do Exército de Libertação de Kosovo (ELK) entregavam suas armas a soldados internacionais de paz a fim de cumprir o prazo de meia-noite local (19h em Brasília) estipulado num acordo com a Otan. Depois disso, os rebeldes só poderão andar armados em áreas pré-determinadas.
Um grande explosão sacudiu Pristina na noite desta segunda-feira quando soldados de paz britânicos realizaram a explosão controlada de artefatos não detonados dentro ou perto da área determinada ao ELK. Os mantenedores de paz disseram que duas casas incendiadas na área não foram afetadas pelas explosão, mas foram aparentemente alvos de retaliação por parte de albaneses étnicos.
Aproximadamente metade dos 860.000 refugiados que foram para Albânia e Macedônia já ignorou alertas de perigo e voltou para casa por conta própria nas duas semanas que antecederam o início do retorno organizado pelas Nações Unidas - com um comboio de 335 pessoas nesta segunda-feira. E como muitos que os precederam, alguns que voltaram para casa hoje encontraram apenas paredes destruídas, cinzas e lágrimas.
"Meu Deus, olha o que eles fizeram", disse Shpresa Mirena ao ver pela primeira vez as ruínas de sua casa em um vilarejo incendiado nas proximidades de Pristina.
Uma campanha aérea de 78 dias realizada pela Otan e o ataque de sérvios contra albaneses étnicos que foi acelerado durante a campanha aliada deixou grande parte da província em ruínas, além de muitas valas comuns para os milhares de albaneses étnicos que nunca tiveram uma chance de fugir.
O retorno imediato e descontrolado de refugiados, incluindo muitos com sede de vingança, complicou os esforços da Otan para manter a paz.
A Otan esperava dar um novo passo rumo à restauração da paz convencendo os soldados do ELK a obedecer o cronograma, desocupando posições e estocando suas armas em locais seguros a partir da meia- noite de hoje.
O general Wesley Clark, comandante supremo da Organização do Tratado do Atlântico Norte na Europa, disse hoje à rádio BBC que os comandantes do ELK estão cooperando bastante com o acordo de desmilitarização assinado em 21 de junho. Mas ele disse que o teste principal será saber se soldados individuais honrarão o prazo de devolução das armas, tirando-as das ruas e colocando-as em depósitos.
"Há uma revolta terrível aqui, coisas horríveis foram feitas a albano-kosovares", declarou. "Hoje é um dia importante. À meia-noite nós esperamos ter o ELK dentro das áreas designadas", afirmou Clark.
Oficiais do ELK disseram hoje que seus soldados estavam devolvendo as armas de acordo com o planejado e que o processo seria concluído ainda nesta segunda-feira.
Atrás das cercas de arame farpado e sacos de areia numa antiga base militar sérvia próxima a Pristina, soldados uniformizados do ELK entravam, deixavam suas armas, trocavam a farda por roupas civis e saíam.
"Muitos de nós serão desmobilizados porque somos apenas voluntários e agora queremos voltar para nossos negócios", disse Lirak Celaj, de 26 anos, que acrescentou estar ansioso para voltar a seu trabalho de ator, após nove meses de combates.
O tenente-general britânico Mike Jackson, comandante da Otan em Kosovo, disse esperar que a chegada, hoje, de mais mantenedores de paz russos faça com que sérvios amedrontados com o retorno dos albaneses étnicos expulsos de suas casas por soldados e policiais sérvios se sintam um pouco mais seguros e permaneçam em Kosovo.
A Rússia, um tradicional aliado de sua irmã eslava Sérvia, enviará um total de 3.600 mantenedores de paz para se unirem às forças da Otan, que eventualmente somará 55.000.
Com base em um acordo assinado pela Otan e pelo ELK em 21 de junho, os rebeldes teriam de estabelecer depósitos de armas seguros e abandonarem posições de combate à meia-noite de hoje.
Apesar da chegada de mais russos, uma funcionária humanitária da ONU disse em Belgrado que o número de sérvios que fugiram de Kosovo temendo possíveis retaliações poderia ultrapassar 100.000, número que supera em 30.000 as estimativas anteriores.
Paula Biocca, do Programa Mundial de Alimentação das Nações Unidas, disse que suas missões em dois campos de sérvios deslocados de Kosovo constatou "muita raiva e ressentimento" em relação ao governo de Belgrado pelo pouco esforço em ajudá-los.
"Não é tanto o pouco que eles conseguiram em termos de ajuda... cobertores, comida e coisas do gênero..., mas a total falta de atenção", disse Biocca. "Eles sentem que acabarão pagando o preço desta guerra horrível."
Nesta segunda-feira, soldados de paz alemães impuseram um toque de recolher entre 22h e 6h em Prizren, tendo como objetivo conter incêndios e outros atos por parte de ilegais, informou a Otan.
Oficiais, falando sob condição de anonimato, disseram que o toque de recolher vale apenas para Prizren, e não para outras áreas do setor alemão em Kosovo. Segundo eles, Prizren seria a única cidade kosovar sob um toque de recolher formal.
Líderes ortodoxos pediram pela proteção dos sérvios remanescentes na província durante as cerimônias de celebração do aniversário de uma derrota para os turcos otomanos em 1389, que durante séculos ocupou o simbolismo mitológico como a fundação do nacionalismo sérvio.
O bispo ortodoxo sérvio Artemije Radosavljevic reconheceu que os albaneses sofreram "perseguição" nas mãos dos sérvios, mas sustentou que os culpados já saíram de Kosovo. "Nós não podemos permitir que multidões incontroláveis e enfurecidas façam justiça", disse ele em entrevista coletiva.
A Igreja Ortodoxa apelou ao nacionalismo sérvio no passado, alertando sobre a "ameaça" da maioria albanesa muçulmana de Kosovo. Mais recentemente, no entanto, líderes ortodoxos se distanciaram do presidente nacionalista Slobodan Milosevic e pediram sua renúncia após o fracasso de suas políticas em relação a Kosovo.
Hoje, o bispo Artemije acusou Milosevic de perder territórios na Bósnia, na Croácia e na Eslovênia, antes habitadas por sérvios, e agora a rápida perda de Kosovo.
Muitos dos mais sagrados lugares da igreja localizam-se em Kosovo. Desde que os bombardeios da Otan obrigaram Milosevic a aceitar um plano de paz e a retirar suas tropas, a igreja mostrou preocupação com os monastérios e outros santuários que ficarão desprotegidos do vandalismo da maioria dos albaneses étnicos muçulmanos.

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