ONGs ocupam vazios do governo, aponta Unesco
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terça-feira, 28 de julho de 1998
Evandro Éboli Agência Estado 
As organizações não-governamentais (ONGs) estão ocupando o vazio deixado pelo governo no atendimento educacional à população rural do País, estimada hoje em 33 milhões de pessoas. A constatação é da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco). As políticas públicas para esse segmento são magras, diria escassas, afirma Maria Dulce Borges, coordenadora de educação da Unesco no Brasil. Para ela, a solução do problema do analfabetismo rural está na parceria dos governos com essas entidades.
Dulce Borges participou ontem da abertura da Conferência Nacional Por uma Educação Básica no Campo, em Luziânia (Goiás). Ela disse também que as ONGs, por terem se formado durante o período da ditadura militar, ganharam experiência e hoje atuam em diversas áreas, inclusive no campo. Para a Unesco, a desatenção do governo com a educação da população rural é comum em toda a América Latina.
No relatório da Unesco, segundo Maria Dulce, o Brasil está bem lá embaixo. Ela se refere ao índice de analfabetismo do País, que atinge 16,7% dos jovens com 15 anos, um dos piores do continente. O Brasil ganha da Bolívia - 17% - mas perde, por exemplo, para Uruguai e Argentina - com percentuais de analfabetismo abaixo dos 5%.
A ausência de uma política oficial exclusiva para a educação rural estimulou o surgimento de algumas iniciativas da própria população por intermédio de suas organizações e movimentos sociais. O propósito é reagir ao processo de exclusão, forçar novas políticas e tentar construir uma identidade própria das escolas do campo, diz o texto-base da conferência.
O mais bem sucedido exemplo desse tipo de iniciativa é o da Escola Família Agrícola (Efas), que existe em vários estados há 30 anos, com mais de 200 centros no País voltados para educação dos filhos de agricultores. Outra iniciativa é a alfabetização de jovens e adultos em escolas dos assentamentos e de acampamentos do MST, e sua experiência na área de formação de professores. As 1.100 escolas do MST atendem a 70 mil alunos.
O coordenador nacional do MST, João Pedro Stédile, participou da abertura da conferência e defendeu o que chama de um modelo paulofreireano de educação rural. No seu discurso, para cerca de mil pessoas, Stédile disse que a política de educação do Governo Federal é voltada para as elites. O programa não é de acordo com o que vivemos, mas com uma realidade virtual, que se projeta na televisão, disse. Para ele, é uma cultura que aliena, que acha chique falar algumas palavras em inglês e francês e que manda os filhos para a Disneylândia, o que é uma idiotice.


