Ongs comemoram "vitória" em Seattle
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sábado, 04 de dezembro de 1999
Por Leda Beck, especial para a AE 
Seattle, 04 (AE) - Mais de 500 manifestantes começaram a festejar por volta da meia-noite de sexta-feira, quando ficou claro que a 3.ª Conferência Ministerial da Organização Mundial do Comércio (OMC) dera com os burros nágua. Eles estavam distribuídos por três áreas da cidade: 300, com comida, cobertores e colchões oferecidos por sindicatos de trabalhadores
instalaram-se na porta da cadeia da cidade, onde a maior parte dos mais de 600 detidos durante a semana estava presa, e exigiam a libertação imediata dos companheiros. Outros 200 aglomeravam-se em frente do Hotel Westin, onde estava a delegação dos Estados Unidos, também com a intenção de ali passar a noite, pedindo o fechamento da OMC; e mais 50 acendiam velas e liam a Constituição americana em voz alta em uma rua do bairro de Capitol Hill, onde aconteceram as piores cenas de repressão na semana.
Durante todo o dia, as autoridades tinham se revezado em explicações e pedidos formais de desculpas pela inabilidade na condução da crise. Na sala de imprensa do Centro de Convenções choviam sobre as mesas dos jornalistas os comunicados de celebração das organizações não governamentais (ONGs) credenciadas para o evento, mais eficientes do que a própria OMC na divulgação de suas idéias e atividades. "A OMC nunca mais será a mesma", disse, por exemplo, Matthew Stilwell, advogado do Center for International Environment Law, em um desses comunicados. "As regras do comércio têm de beneficiar as pessoas e o meio ambiente, não apenas os interesses corporativos", acrescentou. Outra organização, a Public Citizen, notou que, desde sua criação, em 1995, "a OMC decidiu que toda política ambiental, de saúde ou de segurança no trabalho que examinou é uma barreira comercial ilegal". Isso explica porque, nas ecléticas manifestações da semana havia cartazes em defesa das tartarugas marinhas, contra a indústria farmacêutica, pela libertação do Tibet e por salários dignos.
A reivindicação unificadora era pelo fim puro e simples da OMC. A falta de transparência da organização, que tem uma sessão plenária aberta à imprensa (nunca ao público), mas toma as decisões em reuniões de gabinete, com alguns poucos escolhidos, foi uma das mais ferozes críticas dos manifestantes. E não só deles: os países da áfrica e do Caribe, indignados, ameaçaram retirar-se das negociações na sexta-feira, por terem sido excluídos das reuniões decisórias, muito antes de a ministra do Comércio dos EUA, Charlene Barshefsky, dar os trâmites por findos.
Resta contabilizar os mortos e feridos. Os grandes vencedores da semana acabaram mesmo sendo os jovens que ocuparam as ruas da cidade contra o vento e a maré, paralisando a reunião por dois dias. Bill Clinton também ganhou pontos, capitalizando sobre as manifestações com sua polêmica proposta de incluir questões trabalhistas nos acordos - uma iniciativa curiosamente paradoxal, já que os Estados Unidos raramente subscrevem as convenções da Organização Internacional do Trabalho (OIT). E a cidade de Seattle, que generosamente investira US$ 9 milhões na Seattle Host Organization (SHO), montada especialmente para receber as mais de 10.000 pessoas envolvidas na conferência, foi a maior derrotada.
O objetivo dos empresários que montaram a SHO era promover a cidade de Seattle e o Estado de Washington, repetindo talvez a façanha de 1962, quando aqui se realizou a última feira mundial americana lucrativa, a Exposição Século 21 - e Seattle entrou no mapa do mundo, com excelentes resultados para sua economia. Desta vez, as coisas não deram tão certo. Todas as contas feitas, o melhor que conseguiram foi um prejuízo de US$ 7 milhões em vendas perdidas pelas lojas da área de segurança, isolada pelo toque de recolher, e mais US$ 2 milhões em danos ao patrimônio, causados pelos pequenos grupos violentos que desfilaram na terça-feira.
Para tentar recuperar o tempo e o dinheiro perdidos, o município decidiu contribuir para trazer de volta ao centro os consumidores afastados pelos distúrbios da semana, num período pré-natalino importante para as lojas: no sábado, ônibus, trem e metrô não cobraram passagem, o estacionamento foi de graça e algumas lojas chegaram a oferecer polpudos descontos extras ou mesmo mercadorias para atrair os clientes. E mais: a cidade fez novamente hoje a cerimônia em que liga toda a iluminação da decoração de Natal no centro da cidade - na semana anterior ao encontro da OMC, essa cerimônia atraiu multidões ao centro. Além disso, o município contribuiu com um exército de funcionários, que se somaram aos voluntários - a maioria dos quais estava nas passeatas da semana - para limpar as pichações e mesmo pintar paredes inteiras ou reconstruir partes dos edifícios atingidos pelos distúrbios.
Lojistas, empresários e consumidores estão confiantes de que a Cidade Esmeralda - apelido de Seattle, que está sempre verde por causa da chuva constante - voltará ao normal em menos de uma semana. Mas não será tão fácil limpar da memória as lembranças das cenas violentas transmitidas ao vivo pela TV local, que chocou os habitantes e inspirou protestos de inconstitucionalidade. "A culpa é toda minha", dizia o prefeito Paul Schell na televisão, assumindo inteira responsabilidade pela inabilidade das autoridades na administração da crise e pela truculência da polícia: "Da próxima vez, não votem em mim."


