ONG ajuda nordestinos em SP a enfrentar coronavírus com comida, sabão e informação


SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Silvia Marques, 42, diz que mora no lugar mais escondido do mundo, onde nem carteiro chega e internet é raridade.

Sua casa não tem CEP, o código postal usado pelos Correios para a entrega de correspondências, mas ela é uma entre os 12 milhões de moradores da cidade de São Paulo afetados pela pandemia do coronavírus.



A capital paulista tem o maior número de casos confirmados de pessoas infectadas pelo vírus. Das 34 mortes por Covid-19 no país, 30 ocorreram na cidade.

Marques se vira como pode para proteger a sua família numa casa minúscula erguida no Grajaú, bairro do extremo sul da capital.

“Estamos sem sair há uma semana. A nossa casa tem um quarto, uma cozinha, uma sala e um banheiro. Eu e o meu marido estamos dormindo na sala. Deixamos os nossos dois filhos no quarto”, conta.

O Grajaú tem 56,8% de sua população composta por negros e figura entre os distritos paulistanos afetados pela pouca oferta de centros culturais, museus e teatros.

É lá também onde é observada uma das menores taxas de empregos formais (0,6) por dez habitantes com 15 anos ou mais. O desempenho do Grajaú só é maior que o de Jardim Ângela (0,5) e Cidade Tiradentes (0,24), segundo indicadores do Mapa da Desigualdade, da Rede Nossa São Paulo.

Silvia é doméstica e precisou suspender suas idas ao trabalho, porque a creche do filho caçula dela, de quatro anos, parou de funcionar por causa da quarentena imposta pelo prefeito Bruno Covas (PSDB).

“Sei que o meu trabalho está em risco. A minha patroa estava em Portugal e, até agora, ela não me disse como vai ficar a minha situação”, afirma.

Também pesou na decisão o elevado risco de contrair o vírus nos deslocamento de duas horas de ônibus, trem e metrô até a casa da patroa, no Campo Belo (zona sul).

Com toda a família em casa 24 horas por dia, o consumo de comida, luz e água aumentou acima do planejado, diz. “A situação vai ficar muito difícil porque só o meu marido ainda está com o emprego garantido.”

Mas a doméstica ganhou um fôlego. Ela foi uma das 350 famílias beneficiadas com cestas básicas de alimentos não perecíveis e kits de higiene pessoal distribuídos por uma ONG criada para salvaguardar a vida de nordestinos e de seus descendentes, caso de Silvia Marques, que moram nos grandes centros do país.

Os alimentos que abasteceram a despensa de parte dos moradores do Grajaú na última semana foram doados pela Love Together Brasil.

A entidade foi fundada por Geralda Sarraf, paraibana radicada há 15 anos em Nova York, e pela amiga norte-americana Kristen Campagna.

A Love Together Brasil se especializou em furar poços artesianos para levar água potável a pessoas que enfrentam a seca no sertão. Também está envolvida em ações de saúde e educação. Os alimentos são adquiridos, diz Sarraf, com a venda de ingressos em jantares beneficentes.

Para a fundadora, o maior desafio ao longo da quarentena será o de criar um protocolo de medidas preventivas contra o coronavírus que alcance a periferia. “Os médicos dizem: lavem as mãos com sabão. Mas ninguém está pensando que no Brasil tem gente que não tem água por dez dias”, afirma Sarraf.

Sarraf também diz que manter um distanciamento seguro e usar álcool em gel para higienizar as mãos não serão medidas seguidas à risca pelas comunidades porque “estão fora da realidade delas”.

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