ONDE ELES ESTÃO? - Desaparecidos: a dor do mistério
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sábado, 03 de setembro de 2011
Marian Trigueiros <br>Reportagem Local 
''Vivo um luto que nunca acaba. O que me mantém viva é a esperança de um dia reencontrá-la'', desabafa Ivanise Espiridião da Silva, fundadora da Associação Brasileira de Busca e Defesa a Crianças Desaparecidas (ABCD) - entidade mais conhecida por Mães da Sé - e mãe de uma menina que desapareceu em São Paulo na antevéspera do Natal de 1996, quando voltava da casa de uma amiga a 100 metros de distância de sua casa. Seu trabalho é conhecido em todo o País por ajudar famílias que estão na mesma situação, já que há centenas de crianças desaparecidas em todo o País - 22 só no Paraná.
O mesmo luto vive a família do menino Ednilton, que desapareceu em 1992 com 10 anos, em Maringá (Noroeste). Niltinho, como era chamado, sumiu no trajeto entre a casa da mãe e da irmã ao entardecer. ''Nunca imaginei que aquele seria o último dia que o veria. Ainda guardo o rostinho dele na minha memória. Como ele era lindo'', emociona-se Delva Fiúza de Palma ao começar a falar do filho adotivo. Entre a dúvida e a dor, ainda há a saudade interminável. ''Não tem um dia que não me lembro dele. Quando faço a comidinha que Niltinho gostava, quando passo em algum lugar. Quando vejo as fotos... É uma dor que não acaba.''
O menino, que veio morar com ela e o marido quando os dois já tinham os cinco filhos grandes, segundo Delva, foi um presente entregue por Deus. ''Com o desaparecimento dele foi um pedaço de mim junto. O mais difícil é viver com a dúvida do que realmente aconteceu. Fico imaginando se ele sofreu e ficou gritando ''manhê'' e eu não fui acudí-lo. Passa tanta coisa na cabeça. Só queria saber se está vivo ou não para eu poder morrer em paz'', lamenta ela, que está com 75 anos. O marido faleceu há 4 anos sem saber do paradeiro do filho.
Quase vinte anos após o desaparecimento, contudo, a dona de casa confessa que, apesar do sonho de reecontrá-lo, acha difícil que isso aconteça. ''Na mesma época em que ele sumiu, outros dois garotos da mesma idade também desapareceram. Teve gente grande por trás disso'', referindo-se sobre um possível tráfico de crianças. ''Só sei que se isso acontecer, vai ser o momento mais especial que eu poderia viver.'' A projeção digital do menino foi feita para mostrar como ele estaria aos 23 anos.
Nada além de promessa
Em fevereiro do ano passado, o Governo Federal anunciou a criação do Cadastro Nacional de Pessoas Desaparecidas, sob responsabilidade do Ministério da Justiça (MJ), Secretaria Nacional de Segurança Pública (Senasp) e apoio da Secretaria de Direitos Humanos (SDH) da Presidência da República. O objetivo era que o cadastro se tornasse a principal ferramenta de consulta sobre pessoas desaparecidas. Um ano e meio depois, não aconteceu nada além de promessas. Toda mobilização nacional existente é feita por entidades como a ABCD e a Crianças Desaparecidas do Paraná (Cridespar), fundada por Arlete Caramês, mãe do menino Guilherme, desaparecido em Curitiba, em 1990.
Uma das iniciativas criadas para tentar minimizar a situação foi a implantação da Rede Nacional de Identificação e Localização de Crianças e Adolescentes Desaparecidos (Redesap), organizada pela SDH, em 2003. Nela, as delegacias de todo o País poderiam alimentar com dados sobre o desaparecimento. Porém, não tem se mostrado eficaz, pelo menos no Estado. Segundo a delegada do Serviço de Investigação de Crianças Desaparecidas (Sicride) do Paraná, Ana Cláudia Machado, as delegacias não conseguem inserir informações no sistema. ''A congregação de dados facilitaria não só a localização como a real estatística no País, mas isso não acontece.''
Com isso, as informações ficam desencontradas e pulverizadas, pois cada estado trabalha de forma independente. Dessa forma, o número total no Brasil ainda é desconhecido, porque não há nenhum levantamento oficial. O Ministério da Justiça, por exemplo, ignora quantas pessoas estão sumidas no País. As informações existentes têm base no trabalho de organizações civil como a ABCD que estima que cerca de 200 mil pessoas desapareçam todos os anos; 40 mil seriam crianças. A entidade calcula que cerca de 20% dos casos não tenha solução. ''Existe um cadastro nacional de carros roubado enquanto não existe de pessoas desaparecidas'', revolta-se Ivanize.


