O Centro Knight para o Jornalismo nas Américas, da Universidade do Texas, organizou um seminário, exclusivo para repórteres e editores do Rio e Janeiro, sobre ética, técnicas e perigos. Fui convidado para ser um dos preletores. Entendo que o assunto não é só para jornalistas. É de todos.
Alguém me disse que o amigo Tim Lopes não deveria ter ido àquele perigoso lugar dominado pelo traficante Elias Maluco, o que lhe foi tragicamente fatal. Mas comentou antes que os jornalistas são os olhos da sociedade. Dei-lhe razão: ''Tim representava a sociedade, que teve seus olhos vazados''.
Durante um dia inteiro, colegas de jornal e televisão comentaram o rumo do jornalismo investigativo no Brasil. Há um consenso no sentido de que autoridades e instituições somente costumam reagir diante de fatos graves somente depois de denúncia na imprensa. Portanto, ou mostramos ou pouco se faz. E, claro, não somos criadores de fatos, mas reveladores de fatos. Não nos cabe o papel de enfiar a cabeça no buraco diante de situações de perigo. Ou fazer de conta que as coisas não aconteceram, deixando de reportá-las. Seria uma traição à sociedade. O figurino de Judas não é nosso. O da ética e da cidadania, sim.
Foi incrível ouvir as histórias contadas por David Kaplan, da revista US News & World Report, que possui uma editoria de investigações; saber das aventuras de Gerardo Reyes (vencedor do prêmio Pulitzer em 1999) pelo Miami Herald; conhecer as ameaças e as imensas dificuldades vividas por Gustavo Gorriti, repórter investigativo peruano e tomar conhecimento, através de Frank Smyth, do programa de segurança para repórteres, do Comitê de Proteção de Jornalistas em Nova York. Os brasileiros também tiveram uma preciosa participação no seminário, coordenado pelo professor Rosental Calmon Alves, da universidade norte-americana, sendo muito importante, também, a abordagem ética feita pelo professor de jornalismo Francisco Karam, da Universidade Federal de Santa Catarina.
André Azevedo, repórter do Jornal Nacional, contou que uma medida adotada recentemente pela TV Globo omite por razões de segurança o crédito dos cinegrafistas que captaram imagens em situações de risco com bandidos em ação. A que ponto chegamos! Já aconteceu de, na cobertura de enterro de traficante, colegas serem todos expulsos a pedradas do cemitério. O Sindicato dos Jornalistas pretendia promover, ontem, um ato no lugar onde nosso amigo e companheiro Tim foi executado. Os traficantes proibiram. A manifestação foi feita na orla. É de chorar.
É assim, senhoras e senhores, colegas e leitores: os bandidos que executaram Tim quiseram dar um ''cala-te, boca'' na imprensa. Onde já se viu mostrar que Al Capone não é Robin Hood? A sociedade nos pede que mostremos e denunciemos. Do outro lado, os personagens das histórias contra o interesse de todos nos vêem apenas como um inimigo, que deve ser perseguido e até morto. Nosso País precisa de mais Tims. Sejamos Tims, colegas. Entenda os Tims, leitor. Seja menos omisso, poder público.

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