Óleo mancha ilhas e prejudica nativos
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terça-feira, 23 de novembro de 2004
Andréa Lombardo<br>Equipe da Folha 
Curitiba- O cenário na Ilha da Cotinga, na Baía de Paranaguá, é desolador. O que era para ser uma porção de terra cercada de água agregou à sua paisagem uma faixa preta de mais de um metro de largura. Resultado do óleo que vazou do navio chileno VicuÀa e grudou nas pedras, areia, mangues e na vegetação. Não dá para ter idéia do tempo que o meio ambiente levará para se recuperar, já que é a própria natureza que terá que se encarregar da limpeza. As bóias de contenção, colocadas ao redor de parte da ilha, chegaram tarde e não têm mais qualquer função. O acidente com o navio completou ontem uma semana e o óleo continua vazando da embarcação.
Junto como os técnicos do apoio operacional do Instituto Ecoplan organização não-governamental (ONG) que trabalha no resgate de animais contaminados Adilson Nicolella e Messala Alkmin, a reportagem da Folha chegou à Ilha da Cotinga, uma das mais atingidas pela contaminação. No trajeto de cerca de dois quilômetros as manchas de óleo são quase imperceptíveis, mas o cheiro acusa a presença do produto na água.
A equipe foi recebida pelo pescador Antônio dos Santos Mendonça Costa, 33 anos, nativo do local. Ele tem como vizinhos o avô e um tio, que também sobrevivem da pesca, assim como seu pai e um irmão, que vivem no outro lado da ilha. Costa não sabe ainda como vai se manter no período em que a pesca ficar suspensa. ''Não dá para pescar para tirar o sustento e nem para comer o que se pesca'', lamentou. A proibição completa hoje uma semana e não tem prazo para terminar.
O pescador, que já presenciou outros acidentes ambientais na Baía de Paranaguá, afirma que esse foi o pior. Ele conta que nos primeiros dias depois do acidente, o cheiro de óleo em sua casa, que fica a poucos metros da água, era sufocante.
No continente, as queixas também são muitas. O mercado de peixes está às moscas. As pessoas estão com receio de consumir peixe porque não têm certeza de sua procedência e os grandes compradores no caso restaurantes e lanchonetes estão comprando menos, prevendo queda no movimento. Os comerciantes garantem que o peixe vendido ali vem de Santa Catarina e Rio Grande do Sul.
Dono de um box no mercado de peixes há 21 anos, Laércio Ardigó, disse que, mesmo no período em que Paranaguá foi tomada por uma epidemia de cólera, a situação não ficou tão ruim. Ele calcula que a venda caiu em mais de 80%. Antes do acidente com o navio, Ardigó conta que teve dias em que chegou a faturar de R$ 1 mil a R$ 1,2 mil.
A Associação dos Permissionários de Box do mercado de Paranaguá, segundo Ardigó, deve ingressar com uma ação judicial contra as empresas envolvidas com o navio chileno, pedindo indenização pelos prejuízos. Eles adotaram um valor médio de R$ 4 mil mensais para cada um dos 31 boxes.
O prejuízo se estende também aos fornecedores. Carlinda Abreu Almeida, de Itajaí (SC), está em Paranaguá desde sábado com uma carga de 4 mil quilos de peixe, avaliada em R$ 12 mil. Conseguiu vender apenas uma tonelada. Ontem, ela não via outra saída a não ser voltar com a carga para sua cidade.


