Cerca de 800 famílias de lavradores sem-terra invadiram na madrugada de ontem a propriedade Rio Iguaçu, no município de Quedas do Iguaçu (Sudoeste do Estado), da empresa agropecuária e madeireira Araupel. As famílias, somando aproximadamente 2,5 mil pessoas, vêm de várias regiões, e possivelmente entre eles, estejam muitas despejadas de fazendas no Noroeste, na semana passada.
Roni Chiochetta, diretor da empresa (que já pediu reintegração de posse), relatou que os sem-terra ‘‘usavam armas, como revólveres e espingardas de grosso calibre’’. Eles chegaram em caminhões, pela PR-473, por volta das 4h30, dominando funcionários na guarita de entrada, a 4 quilômetros da cidade. Não houve violência física. Ainda na parte da manhã, os sem-terra permitiram que a empresa retirasse maquinário agrícola, como tratores e colheitadeiras, que estavam em um barracão.
A propriedade Rio Iguaçu tem 5 mil hectares, dos quais, segundo a Araupel, 1,8 mil são de terras mecanizadas e o restante de matas nativas de preservação e reflorestamento. Segundo Roni Chiochetta, sobre a propriedade já havia sido expedido um ‘‘interdito proibitório’’ da Comarca de Quedas do Iguaçu. O instrumento jurídico serve como ‘‘aviso’’ para que sem-terra não ocupem a área, sob pena de responsabilização criminal por desobediência e penas pecuniárias, além de despejo.
A direção da Araupel, originariamente Giacomet-Marodin, com sede em Porto Alegre (RS), distribuiu nota ontem à tarde, em que afirma estar ‘‘perplexa’’ com a invasão. Segundo a empresa, o MST teria ‘‘anunciado amplamente’’ que isso ocorreria. Além disto, o governo do Estado ‘‘foi insistentemente alertado e não tomou nenhuma medida preventiva para evitar’’, deixando a empresa ‘‘ameaçada por esse estado de baderna e desrespeito às leis’’.
A Araupel é dona de um total de 53 mil hectares na região, em imóveis contíguos. Outra de suas antigas propriedades, a Fazenda Pinhal Ralo, de 27 mil hectares, no município de Rio Bonito, foi invadida em abril de 96 por três mil famílias, na maior ação do gênero já registrada no País. Depois, a empresa aceitou negociação com o Incra para desapropriação, que resultou no assentamento de mil famílias que permaneceram no local. O assentamento recebeu o nome de ‘‘Ireno Alves dos Santos’’, líder do MST já falecido.

mockup