Rio - A Sociedade Brasileira de Oftalmologia denunciou ontem, em manifesto, a ‘‘banalização’’ das cirurgias de catarata e alertou que, se não houver fiscalização rigorosa dos produtos usados nessas intervenções, problemas como os registrados este ano em vários Estados tendem a aumentar. Só no Rio, 23 pessoas tiveram perda total ou parcial da visão em decorrência do uso de dois produtos contaminados, o Methyl Lens 2% e o Oft Visc.
  Os médicos criticam o governo e os planos de saúde e cobram fiscalização mais rigorosa do poder público.‘‘É importante considerar que a forte pressão por redução de custos, exercida pelo governo, grande comprador de insumos para o SUS (Sistema Único de Saúde), e pelas operadoras de planos de saúde faz com que algumas vezes as cirurgias sejam feitas em locais impróprios e com materiais produzidos sem o devido rigor’’, diz o documento. Com isso, aumentam os riscos para o paciente, ‘‘que nem sequer tem noção disso.’’
  Diante da ‘‘nova realidade’’, que provocou ‘‘o estímulo ao surgimento de produtos mais baratos’’, a solução, segundo os oftalmologistas, é a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) intensificar o rigor da fiscalização, licenciamento para fabricação e distribuição de produtos.
  Os médicos dizem haver uma falsa idéia de que a cirurgia de catarata é simples, pelo fato de ser rápida. ‘‘Na observação leiga, a cirurgia de curta duração é vista como simples, sem riscos. A população precisa saber que isto não é verdade. Não se pode confundir simplicidade com segurança.’’
  Segundo o presidente da Sociedade de Oftalmologia, Paulo César Fontes, são feitas no Brasil 400 mil cirurgias de catarata por ano e a tendência é este número crescer por causa do aumento da expectativa de vida do brasileiro. ‘‘O aumento da demanda não está acompanhado dos devidos cuidados’’, disse Fontes, lembrando que até 2025, segundo estimativa da Organização Mundial de Saúde, o Brasil será o sexto país do mundo em número de idosos.
  A sociedade distribuiu aos profissionais um manual de conduta e procedimentos no uso de produtos e em cirurgias oftalmológicas. O manifesto foi lançado no II Congresso Nacional da Sociedade Brasileira de Oftalmologia, que reuniu 1.500 profissionais na Barra da Tijuca, no Rio.
  Ontem o delegado Renato Nunes, da Delegacia de Repressão a Crimes contra a Saúde Pública do Rio, instaurou inquérito para apurar a responsabilidade do laboratório Oft Vision, fabricante do gel Oft Visc, que fez 13 vítimas operadas no Instituto Benjamin Constant.
  O presidente da Mediphacos, Marcelo Soares, foi autorizado por Paulo César Fontes a ler uma nota de esclarecimento no congresso. Soares diz que a empresa ‘‘agiu de boa-fé ao adquirir produto amplamente disponível no mercado’’ e duvida que tenha havido contaminação do gel. Segundo o empresário, há vários fatores que podem levar a infecções depois da cirurgia de catarata.

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