Oftalmologistas pedem rigor na fiscalização
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sexta-feira, 20 de junho de 2003
Luciana Nunes Leal<br>Agência Estado 
Rio - A Sociedade Brasileira de Oftalmologia denunciou ontem, em manifesto, a banalização das cirurgias de catarata e alertou que, se não houver fiscalização rigorosa dos produtos usados nessas intervenções, problemas como os registrados este ano em vários Estados tendem a aumentar. Só no Rio, 23 pessoas tiveram perda total ou parcial da visão em decorrência do uso de dois produtos contaminados, o Methyl Lens 2% e o Oft Visc.
Os médicos criticam o governo e os planos de saúde e cobram fiscalização mais rigorosa do poder público.É importante considerar que a forte pressão por redução de custos, exercida pelo governo, grande comprador de insumos para o SUS (Sistema Único de Saúde), e pelas operadoras de planos de saúde faz com que algumas vezes as cirurgias sejam feitas em locais impróprios e com materiais produzidos sem o devido rigor, diz o documento. Com isso, aumentam os riscos para o paciente, que nem sequer tem noção disso.
Diante da nova realidade, que provocou o estímulo ao surgimento de produtos mais baratos, a solução, segundo os oftalmologistas, é a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) intensificar o rigor da fiscalização, licenciamento para fabricação e distribuição de produtos.
Os médicos dizem haver uma falsa idéia de que a cirurgia de catarata é simples, pelo fato de ser rápida. Na observação leiga, a cirurgia de curta duração é vista como simples, sem riscos. A população precisa saber que isto não é verdade. Não se pode confundir simplicidade com segurança.
Segundo o presidente da Sociedade de Oftalmologia, Paulo César Fontes, são feitas no Brasil 400 mil cirurgias de catarata por ano e a tendência é este número crescer por causa do aumento da expectativa de vida do brasileiro. O aumento da demanda não está acompanhado dos devidos cuidados, disse Fontes, lembrando que até 2025, segundo estimativa da Organização Mundial de Saúde, o Brasil será o sexto país do mundo em número de idosos.
A sociedade distribuiu aos profissionais um manual de conduta e procedimentos no uso de produtos e em cirurgias oftalmológicas. O manifesto foi lançado no II Congresso Nacional da Sociedade Brasileira de Oftalmologia, que reuniu 1.500 profissionais na Barra da Tijuca, no Rio.
Ontem o delegado Renato Nunes, da Delegacia de Repressão a Crimes contra a Saúde Pública do Rio, instaurou inquérito para apurar a responsabilidade do laboratório Oft Vision, fabricante do gel Oft Visc, que fez 13 vítimas operadas no Instituto Benjamin Constant.
O presidente da Mediphacos, Marcelo Soares, foi autorizado por Paulo César Fontes a ler uma nota de esclarecimento no congresso. Soares diz que a empresa agiu de boa-fé ao adquirir produto amplamente disponível no mercado e duvida que tenha havido contaminação do gel. Segundo o empresário, há vários fatores que podem levar a infecções depois da cirurgia de catarata.


