São Paulo, 19 (AE) - O mercado brasileiro de crédito começa a dar os primeiros passos no sentido da recuperação. Os balanços dos bancos divulgados nas últimas semanas mostram a tendência, revelando a estratégia de cada um para a retomada do crédito de forma mais acentuada, acompanhando o crescimento da economia. Somente o Itaú e o Unibanco, que juntos tiveram lucro líquido de R$ 2,3 bilhões no ano passado, querem emprestar 30% a mais em relação a 1999.
Estudo do Banco Bilbao Vizcaya (BBV) prevê que o crédito bancário total no País, descontada a inflação, deverá crescer 10 84% neste ano, principalmente devido ao impulso dos empréstimos à pessoa física, com alta prevista de 21,68%, e ao setor privado
com aumento de 13,22%.
A previsão do banco Bozano, Simonsen é bastante semelhante: alta de 11,5% para o crédito bancário. O crédito aos setores público e rural será o único que tenderá a diminuir no período.
A melhora da economia, porém, não é o único fator a levar ao reaquecimento do crédito no País. A queda da taxa de juros também é determinante nesse processo. No ano passado, houve um esforço nesse sentido com a redução da taxa básica da economia (Selic) de 45% ao ano para 19%. Em 2000, o movimento continua, embora de forma mais modesta. O mercado financeiro trabalha com uma taxa média para este ano em torno dos 17%. Em 1999, a média ficou em 25%.
Além da própria queda da taxa básica, a redução do spread bancário (diferença entre o custo de captação e os juros cobrados nos empréstimos), decorrente de redução de tributos e da competição entre as instituições, entre outros fatores, conta na redução do custo dos empréstimos bancários, estimulando a demanda por crédito, que, por fim, também terá papel decisivo para a economia voltar a crescer.
Apesar dessa clara tendência, o aumento do crédito na economia brasileira não chegará aos níveis alcançados na época do Real neste ano. O peso do crédito total em relação ao Produto Interno Bruto (PIB) deve alcançar 31,6% em 2001, segundo previsão do BBV. No auge do Plano Real, na passagem de 1995 para 1996, o peso do crédito era de 31,2%.
Certamente, a pior marca no desempenho do crédito dos últimos anos ocorreu depois da crise russa, em agosto de 1998, quando o volume caiu para 26% em relação ao total do PIB. "Há uma recuperação das expectativas e os dados referentes ao PIB do último semestre são inequívocos," diz Octávio de Barros, economista-chefe do BBV. Mas o País ainda está no meio do caminho.
Entre os fatores que podem limitar a oferta do crédito, no caso das pessoas físicas, está o elevado índice de inadimplência. Na primeira quinzena de fevereiro, o índice de inadimplência registrou queda de 9,1% em relação a fevereiro do ano passado, mas ainda está em níveis altos e vai segurar um pouco os empréstimos neste ano. A taxa nos novos créditos será de 4%, reduzindo o índice geral de endividamento de 8,8% para 8 0% até o fim do ano.
Empresas - A outra ponta do mercado de crédito, as empresas, também já está utilizando várias fontes de recursos para fazer frente aos investimentos necessários e não apenas o crédito bancário. Captações domésticas (debêntures e notas promissórias) e lançamento de ações estão crescendo.
"As empresas estão voltando a acessar o mercado de capitais e as primeiras a fazê-lo são as do setor de infra-estrutura", diz Dany Rappaport, economista-sênior do Banco Santander. Os setores de telecomunicações e de energia elétrica estão entre os grande tomadores de recursos neste ano.
Muitas dessas empresas estão recorrendo às emissões de papéis de renda fixa, em vez de buscar o mercado internacional. "No mercado interno o dinheiro também está competitivo", acrescenta.
O diretor de Gestão de Recursos do banco AGF-Braseg, Kazuhiro Miyamoto, observa que "muitas empresas foram obrigadas a aceitar os juros do mercado interno quando o externo se fechou ao País, tanto em project finance (modalidade de financiamento de projetos de infra-estrutura) quanto em dívida", diz Miyamoto.
Agora, com o preço mais competitivo, o número de emissões privadas domésticas vai aumentar, podendo até dobrar em relação ao ano passado, especialmente no caso de emissões de debêntures. O ânimo das bolsas estimula o lançamento de debêntures conversíveis em ações.
A oscilação do dólar também inibe captações externas, que devem ser limitadas aos grandes grupos econômicos e financeiros e aos exportadores.
Mas ainda assim, o mercado externo também continuará sendo uma importante fonte de financiamento das empresas. Ainda que a oferta de crédito cresça como prevêem os bancos, os números não serão suficientemente elevados para exercer influência sobre a inflação. Na opinião dos economistas, a evolução do crédito é necessária e compatível com a alta de 3% a 4% prevista para o PIB este ano.

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