Paris, 24 (AE) - Existem políticos que se reúnem constantemente, que aparecem frequentemente na TV, que dizem: "Viva o Socialismo!" ou "Viva o Mercado!", que abraçam bebês nas creches, que falam da França ou da Itália ou dos Estados Unidos...
E há também outros homens que jamais aparecem na TV, que não dizem nada, mas que colocam sobre a mesa bilhões de francos (como nós tiraríamos de nossas carteiras duas notas de 300 euros) e que dizem: "Eu compro". E a pergunta é esta: quem são estes donos das coisas? São os políticos, que perpetuamente estão tagarelando? Ou então são esses mudos, esses taciturnos, os que fazem explodir uma Bolsa de Valores, que compram um país, que arruinam outro?
Um exemplo deste contraste: em Florença, há alguns dias, cinco chefes de Estado, poderosos e brilhantes (Clinton, Jospin, Fernando Henrique Cardoso, DAlema e Blair) conversaram, tagarelaram. Pareciam acreditar que dominavam o mundo. Mas, enquanto eles conversavam, alguma coisa se desenvolvia na sombra: o gigante britânico da telefonia móvel, Vodafone, tentava engolir outro gigante, a empresa alemã Mannesmann, lançando contra esta última uma oferta pública de compra hostil. "Tudo bem", se dirá. "É uma empresa querendo devorar outra. E daí?" Mas é preciso acrescentar um detalhe: a oferta de compra da Mannesmann por parte da Vodafone britânica, através de uma troca de ações, irá dar um total de 800 bilhões de francos (mais de 100 bilhões de euros). Uma oferta correspondente à metade do orçamento anual da França!
Este negócio constitui um caso típico das novas leis que regulamentam as economias modernas. Por dois motivos: em primeiro lugar, em razão da enormidade dos fundos a serem mobilizados pelos grandes grupos. E, em segundo lugar, porque esta batalha entre a Inglaterra (Vodafone) e a Alemanha (Mannesmann) ilustra espetacularmente duas ideologias econômicas antagônicas.
A Mannesmann alemã é uma empresa venerável de 150 anos, que está um pouco em toda a parte, desde os tubos de aço até o turismo e o telefone, um símbolo e brasão da chamada "economia renana" - isto é, de uma economia capitalista fortemente enquadrada ao mesmo tempo pela potência do Estado, pelos sistemas sociais (sindicatos e proteção social) e por aquilo que se chama de "consenso", "co-gestão", etc.
Nada disso existe na parte inglesa: Ali, trata-se do capitalismo livre, puro, duro, às ordens dos chefes tão destituídos de sentimentos quanto o falcão quando seu olho mortal vê no campo uma lebre. É por isso que os alemães, tendo à frente o chanceler Gerhard Schr”der (que não é considerado "esquerdista") estão entristecidos pelo golpe lançado contra um dos símbolos de sua soberba indústria.
Eles estão muito revoltados. Defendem a excelência de seu modelo de economia (o famoso "capitalismo renano") e mandam às favas o capitalismo predador dos ingleses. A questão terá portanto um valor simbólico para o grande desafio de nosso tempo: qual o tipo de capitalismo que irá prevalecer?
Na realidade, o caso alemão não é assim tão claro como acabamos de dizer: embora de fato as elites políticas continuem ligadas ao velho "capitalismo renano", vimos proliferar recentemente na Alemanha novos agentes de decisão, pessoas de 50 anos, formadas nos Estados Unidos, que se entregam de corpo e alma ao liberalismo extremo que viram fazer tanto sucesso na América.
Estes jovens capitães da indústria, de longos dentes, realizaram fusões, absorções, ou ofertas de compra de grande envergadura e não manifestaram então escrúpulos maiores do que os que hoje demonstram os ingleses da Vodafone.
Os poderes públicos alemães tentam fazer fracassar essa oferta de compra hostil da Vodafone. Mas, não nos iludamos: os governos não têm muito poder diante destes monstros econômico-financeiros. Em última análise, é o mercado que irá decidir a questão entre os dois adversários.
E o mercado se agita febrilmente. Ironia: soube-se hoje que quem ameaça fazer pender a balança para um ou outro lado é um chinês. Um chinês de Hong Kong, um tal Li Ka Shing, de 72 anos, que deteria 10% do capital da Mannesmann. Ora, estranhamente, este financista formidável parece inclinar-se para o lado da Mannesmann. Shing teria declarado: "O grupo alemão está melhor posicionado em relação ao futuro do que a Vodafone".
Então, estará tudo decidido? Não, porque outros investidores europeus, aliás bastante desconhecidos, possuem, em conjunto, 60% do capital.
Meio complicado, não é? Nós apontamos somente os efeitos superficiais, em suma, apenas uma máscara. Sob esta máscara existem rostos desconhecidos, empresas de muitas facetas, acordos de um dia, desacordos em outro dia, um labirinto que não saberíamos desenhar, nem muito menos desvendar, sobretudo porque todas essas manobras se operam, se ligam ou se desligam, nas sombras.

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