Agência Estado
De Brasília
As ações do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem-Terra (MST) em Pernambuco e no Pará provocaram um racha nos movimentos sociais e começam a incomodar também o PT, que até então dava apoio incondicional à entidade. Ontem a Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura (Contag) anunciou seu rompimento com o MST e o PT divulgou, em sua página na Internet, uma nota repudiando ‘‘invasões de prédios públicos’’ e desvinculando-se das facções mais radicais do MST. No Pará a Secretaria de Defesa Social foi depredada durante manfestação organizada pelo MST.
Nos últimos dois dias, representantes dos movimentos sociais e dos partidos oposicionistas fizeram consecutivas reuniões em Brasília para deixar claro o descontentamento com as ações do MST. O presidente de honra do PT, Luís Inácio Lula da Silva, tentou, em vão, apaziguar a briga – até então mantida nos bastidores – entre os principais caciques do MST e a direção da Contag. Em sua nota, o PT afirma desconhecer a existência de grupo denominado ‘‘milícia cabana’’ em sua legenda. ‘‘O PT não tem milícia’’, afirma.
O presidente da Contag, Manoel José dos Santos, informou que o pivô da desavença com o MST – que, segundo ele, ainda poderá acabar em conflitos entre trabalhadores – foi a invasão por sem-terra liderados pelo MST das terras da Usina Catende, em Pernambuco. A usina emprega 11.800 trabalhadores e é administrada em regime de autogestão desde 1995 por um grupo coordenado pela Contag. Em 99, ela produziu 180 mil sacas de açúcar. Hoje, a usina é responsável por cerca de 2 mil empregos diretos.
‘‘O MST chegou ao limite’’, avisou Santos, ao alertar que a Contag só reatará as relações com o MST quando os sem-terra desocuparem a área da usina. Para Santos, as lideranças do MST em Pernambuco ‘‘perderam o rumo’’ ao ocupar terras de trabalhadores que estão produzindo, em vez de combater os latifundiários. ‘‘Isso é inaceitável.’’
A usina, ocupada parcialmente pelo MST, não é só de cana-de-açúcar. Nela também se desenvolve um novo modelo de produção consorciada, onde se destaca o cultivo do café. A usina tem área de 26 mil hectares e em 2 mil deles os trabalhadores estão conciliando a produção familiar com a atividade empresarial. ‘‘O estranho é que há outras 11 usinas improdutivas e eles (do MST) não invadiram’’, reclama Santos.
Desde o ano passado, Contag e MST atuavam em parceria, chegando a promover reuniões conjuntas para definir estratégias de ação. O dirigente da Contag ainda acusa os sem-terra de Pernambuco de aliar-se com o PFL e desprezar seus parceiros. ‘‘O MST fez alianças com forças reacionárias que combatem o projeto dos trabalhadores de Catende’’, disse Santos.
Relatório O presidente do Instituto Nacional
de Colonização e Reforma Agrária (Incra), Orlando Muniz, entregou ontem ao ministro da Justiça, José Gregori, relatório detalhado sobre ‘‘sequestros de servidores’’, feitos por integrantes do MST. Pelos cálculos do Incra, do início de 1999 até agora, 530 servidores foram mantidos como reféns. E só teriam ocorrido 34 invasões de terra desde o dia 16.

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