Londres, 12 (AE-REUTERS) - Enquanto líderes da Otan proclamam sua resolução em seguir adiante com os bombardeios até que o presidente iugoslavo, Slobodan Milosevic, aceite suas exigências para Kosovo, o Ocidente está trabalhando para reparar abalados laços com a Rússia tendo um olho numa solução política.
O primeiro-ministro britânico, Tony Blair, garantiu hoje que não haverá concessão em relação aos objetivos de guerra da Otan. "Vamos seguir em frente até que cada um de nossos objetivos seja plenamente garantido", disse.
Mas com Milosevic não mostrando sinais de que vai curvar-se ao poder aéreo da Otan, e com os líderes ocidentais extremamente relutantes em lançar uma guerra terrestre, analistas afirmam que está se aproximando o momento da verdade quando o Ocidente pode ter de contemplar uma solução negociada.
"A dinâmica da situação é agora tal que ou nós ganhamos usando tropas terrestres ou então teremos de reduzir nossos objetivos de guerra e fazer um acordo com Milosevic", disse o professor August Pradetto, um cientista político na Universidade das Forças Armadas da Alemanha, em Hamburgo.
A Otan ainda não chegou ao ponto de ter de tomar tal decisão.
A secretário de Estado dos EUA, Madeleine Albright, pediu hoje aos aliados para manterem-se no curso, e seu porta-voz, James Rubin, afirmou na CNN: "Achamos que temos de dar uma chance para que a campanha aérea dê resultado antes de sabermos se teremos de mudar de curso".
Mas Albright também sinalizou alguma flexibilidade, quando sugeriu que Washington não mais insistia que uma força de paz para Kosovo fosse liderada pela Otan e que poderia aceitar um papel nela para as Nações Unidas ou para a Organização para a Segurança e Cooperação na Europa.
Ela disse que os aliados estavam considerando "algum tipo de status de protetorado internacional" para Kosovo.
O ministro do Exterior da Alemanha, Joschka Fischer, afirmou depois de uma reunião de ministro da Otan que ele esperava para esta semana uma iniciativa política com o envolvimento da Rússia, e que todos seus colegas viam agora que a melhor solução seria uma força de paz sob um mandato da ONU.
A opinião pública em países aliados-chaves apóia fortemente a guerra aérea, tende a apoiar uma ofensiva terrestre e aparentemente ainda não está impaciente pelo fim das ações militares.
Mas o tempo exerce uma forte pressão. Forças sérvias criam fatos em terra com a expulsão de centenas de milhares de albaneses étnicos de suas casas. E combates na fronteira entre Kosovo e Albânia têm aumentado o risco da expansão da guerra caso não seja encontrada uma solução em breve.
O ministro do Exterior francês, Hubert Vedrine, disse no domingo que a aliança estava começando a considerar uma solução política e que a Rússia tinha um papel essencial para desempenhar na busca de qualquer acordo.
Albright sugeriu uma outra possível concessão a Belgrado no domingo quando recusou-se a dizer que todas as forças iugoslavas têm de sair de Kosovo.
"Não estamos declarando especificamente quais são os números... Temos de ser realistas e flexíveis enquanto olhamos para o futuro", afirmou ela, em contraste com a linha oficial da Otan de que todas as forças militares e especiais da polícia têm de se retirar de Kosovo.
Albright deve reunir-se com o ministro do Exterior da Rússia, Igor Ivanov, em Oslo nesta terça-feira. Serão as primeiras conversações de alto nível entre as duas potências desde que a Otan lançou sua guerra aérea em 24 de março apesar da forte oposição de Moscou.
O presidente francês, Jacques Chirac, depois de conversar por telefone com o presidente russo, Boris Yeltsin, disse que ficou satisfeito com o fato de Moscou estar disposto a trabalhar com seus parceiros aliados na busca de um acordo para Kosovo apesar de suas diferenças em relação aos ataques aéreos da Otan.
A Rússia tem mordido e soprado, ansiosa por evitar ser marginalizada por uma derrota militar de seu irmão aliado eslavo ortodoxo mas cuidadosa em não ajudar os sérvios de forma tal que colocaria em risco vitais créditos e cooperação ocidentais.
Diplomatas afirmam que Moscou compartilha a maioria das condições ocidentais para uma solução para Kosovo, incluindo autonomia, e já desejava anteriormente contribuir com tropas para uma força de segurança internacional na província caso esta tenha a concordância de Belgrado.
Um diplomata europeu disse que se as conversações entre Albright e Ivanov e outros contatos dos aliados com Moscou forem positivos, eles podem buscar uma resolução no Conselho de Segurança da ONU com base nos termos de paz oferecidos pelo secretário-geral da ONU, Kofi Annan, na semana passada.
Annan pediu a Belgrado para observar cinco condições em troca de um cessar-fogo da Otan:
- "o fim imediato da campanha de intimidação e expulsão da população civil (de Kosovo);
- "o fim de todas as atividades de forças militares e paramilitares em Kosovo e a retiradas dessas forças;
- "a aceitação incondicional do retorno dos refugiados e de pessoas deslocadas para suas casas";
- "aceitação da entrada de uma força militar internacional a fim de garantir um clima de segurança para o retorno dos refugiados e a entrega sem empecilhos de ajuda humanitária";
- "permitir que a comunidade internacional verifique o cumprimento desses entendimentos."
Pelas propostas de Annan, o futuro político de Kosovo estaria então sujeito à retomada de negociações com Belgrado, enquanto que o diplomata disse que governos ocidentais estão tendendo a buscar um protetorado internacional sob mandato da ONU.
Ele afirmou que o plano de Annan foi oferecido depois de consultas com governos da Otan e da Rússia e ele era próximo tanto aos termos da Otan enviados a Milosevic na semana passada depois que ele anunciou um cessar-fogo unilateral quanto a posição da União Européia sobre uma resolução.
Entretanto, não existe indicação até agora de que Milosevic estaria disposto a aceitar o que efetivamente seria uma rendição disfarçada, e não há sinal de que a Rússia possa conseguir sua aceitação.
Outra iniciativa sob consideração é uma estratégia de longo prazo para o sudeste da Europa, à qual Fischer tem se referido como um "Plano Marshall para os Bálcãs" e o secretário-geral da Otan tem chamado de "uma parceria para a prosperidade".
Diplomatas disseram que a idéia será trazida à tona quando os líderes da Otan se reunirem em Washington na semana que vem para a cúpula do 50º aniversário da aliança atlântica.

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