Johannesburgo, 29 (AE-IPS) - O Ocidente concede mais atenção ao conflito na Iugoslávia do que a dezenas de guerras que são travadas há décadas na áfrica, muitas das quais muito mais intensas do que a que provocou o ataque da Otan a forças iugoslavas.
As minorias oprimidas e os milhões de refugiados provocados pelas ditaduras, os guerrilheiros e a probreza em países como Angola, República Democrática do Congo (RDC), Serra Leoa e outros, ficariam encantados em receber a atenção da comunidade internacional.
A ausência de uma segunda superpotência provocou cruéis conflitos e grandes tragédias humanas na áfrica desde o começo da década de 90, enquanto as potências mundiais observam de uma cômoda distância.
Os meios de comunicação há muito deixaram de prestar atenção à áfrica, e agora se concentram em Kosovo e nas intermináveis idas e vindas dos diplomatas do Ocidente, no que parece ser a pior crise de refugiados na Europa das últimas décadas.
"Neste momento, a comunidade internacional parece querer desobrigar-se do compromisso multilateral nos conflitos aparentemente intermináveis da áfrica", assinalou Greg Mills, diretor do Instituto de Assuntos Internacionais da áfrica do Sul.
A tragédia de Kosovo parece menor se comparada com a que ocorre em alguns países africanos. A retomada da guerra em Angola, por exemplo, aumentou o número de refugiados internos para 1,5 milhão, numa população total de 11,5 milhões de pessoas.
A guerra civil em Serra Leoa, iniciada em 1991 e retomada em 1997, destruiu quase toda a infra-estrutura do país, o que causou uma grande deterioração das condições de vida. Apenas entre 10 e 15 por cento dos 4,5 milhões de habitantes desse país têm acesso ao atendimento médico básico.
A guerra e o embargo imposto pela Comunidade Econômica dos Estados da áfrica Ocidental (ECOWAS) estrangulou a economia de Serra Leoa.
O golpe de Estado de maio de 1997 provocou o fechamento de todos os bancos comerciais. A agricultura, a pesca e a mineração já haviam sido paralisadas no começo das hostilidades em 1991, e a arrecadação do governo havia diminuído 90 por cento.
A ajuda estrangeira, que representava 30 por cento do orçamento, foi cancelada.
Houve umas 30 guerras na áfrica desde 1970, a maioria internas.
Em 1996, 14 dos 53 países africanos se encontravam em guerra, as quais provocaram a metade dos mortos por conflitos bélicos em todo mundo e oito milhões de refugiados.
A guerra civil de Moçambique provocou entre 1981 e 1986 uma queda anual de 3,5 por cento do Produto Interno Bruto. Quase metade das rodovias do país só podem ser utilizadas por veículos off road.
Um ano de violência em Kosovo custou a vida de 2.000 pessoas, enquanto que só o conflito de Angola, em 1994, deixou 200.000 vítimas. Em Ruanda, em 1994, 800 mil tutsis e hutus moderados foram massacrados diante da passividade do Ocidente, deixando também cerca de 2,3 milhões de refugiados.
A regra na áfrica parece ser que a infra-estrutura destruída durante os conflitos civis não se repara, fica como um documento do ocorrido e, em alguns casos, países inteiros deesaparecem do mapa, como no caso da Somália.
O presidente da Iugoslávia, Slobodan Milosevic, foi rotulado pelos meios de comunicação como um novo Hitler, mas a áfrica sofreu com ditadores como o do ex-Zaire (atual RDC), Mobutu Sese Seko, um aliado do Ocidente que jamais convocou verdadeiras eleições e, mesmo assim, ninguém o ameaçou e muito menos o bombardeou.
Analistas africanos sustentam que se desenvolveu uma atitude especial em relação a esse continente depois do fim da Guerra Fria.
A falta de interesses estratégicos do Ocidente na áfrica parece ser uma das explicações. Mas isto se sucede quando o continente vive agudas crises humanitárias.
"Estados Unidos e seus aliados da Otan tentam fazer parecer que sua última ação foi inspirada na preocupação com os direitos das minorias. Na verdade, não tem nada a ver com isto, senão com os grandes poderes políticos", afirmou o Partido Comunista da áfrica do Sul (SACP).
"Tal postura em relação às minorias de Kosovo é contraditória com a indiferença da Otan com os problemas de minorias da região
como os curdos, que há décadas sofrem a dominação e o genocídio por parte da Turquia, um membro da organização", assinalou o SACP.
A ONU se retirou de Angola este ano, deixando um vazio nas negociações entre as partes em conflito, o governo e a União para a Independência Total de Angola (Unita), e reforçando os argumentos daqueles que afirmam que o foro mundial é irrelevante.
As operações de manutenção da paz da ONU alcançaram seu pico em 1994, quando houve 17 operações com 85.000 voluntários, e cujo orçamento subiu para US$ 3,4 bilhões. Este ano, 70 por cento das operações se desenvolvem na áfrica.
Atualmente, a ONU promove 15 operações levadas a cabo por 24.000 pessoas, com um orçamento de US$ 1 bilhão.
"O ataque a Belgrado anula mais ainda a autoridade do Conselho de Segurança da ONU", afirmou Jackie Cilliers, do Instituto de Estudos sobre Segurança, uma organização não governamental, em Johannesburgo.
"Também faz com que seja essencial criar um sistema internacional baseado em critérios claros que se apliquem a todas as nações, para não ficarem à mercê das interpretações do Conselho de Segurança", concluiu.

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