Trípoli (AE-AP) - É difícil hoje em dia encontrar um assento nos vôos para a Líbia. As possibilidades são de que eles estejam ocupados por executivos europeus em busca de bons negócios no mais novo mercado árabe.
Desde que a ONU levantou suas sanções econômicas no ano passado, o líder líbio Moammar Kadafi vem cortejando estrangeiros para investir na economia local, que permanece subdesenvolvida exceto por seu rico setor petrolífero.
Kadafi começou a diminuir a intensidade de três décadas de controle socialista e vem tentando deixar sua reputação de patrocinador do terrorismo para trás. Mas as promessas de proteção aos investimentos na Líbia ainda não foram testados.
"A Líbia pode precisar da privatização, mas eu não acho que o governo seja sério", diz Bahgat Moussa, que leciona economia e negócios do Oriente Médio na Universidade Americana do Cairo e com frequência visita a Líbia. "Ninguém conhece suas reais intenções. Eles não são confiáveis e ninguém pode prever o que os líbios fariam depois de um mês", afirma ele.
Investidores potenciais também não estão à vontade com as tentativas do governo de empurrá-los para empreendimentos com parceiros locais que possuem pouca experiência no mundo dos negócios.
O sistema bancário líbio é tão primitivo que um cheque demora semanas para ser compensado. Os procedimentos alfandegários são arbitrários. O governo não divulga estatísticas comerciais, tornando as projeções e análises impossíveis de serem feitas.
"Como investidores estrangeiros, nós estamos no escuro", diz Marcus Courage, cuja empresa, Strategic Profile International, sediada em Londres, representa o Grupo de Negócios Britânico-líbio, que compreende 25 companhias britânicas. Mas completa: "qualquer pessoa seria imbecil se negligenciasse as oportunidades que estão lá".
Os investidores europeus estão apostando que a Líbia irá, no final das contas, apresentar tremendas oportunidades, e que o primeiros a arriscar serão os primeiro a ser beneficiados. Investidores norte-americanos continuam impedidos pelas sanções impostas pelos EUA.
A Líbia precisa diversificar sua economia, que é baseada em petróleo, e reduzir os 10% de inflação e o desemprego, estimado em 30%.
A Líbia "não pode arcar com os gastos de não fazer parte deste mundo globalizado", diz Courage.
O governo promulgou uma lei com 28 medidas em 1997 com a intenção de encorajar o investimento do capital estrangeiro. Mas começou a perseguir o dinheiro externo seriamente somente depois que a ONU suspendeu, no dia 5 de abril, os sete anos de embargo sobre os vôos de empresas aéreas internacionais e de peças para a indústria petrolífera.
A suspensão resultou na entrega, pelo governo líbio, de dois agentes da inteligência para julgamento na Holanda. Eles são acusados pela explosão, em 1988, de um jato da Pan Am, ato que representa uma mudança decisiva nos crescentes esforços da Líbia para mudar sua notoriedade como um estado pária, que patrocina o terrorismo.
A suspensão das sanções abriu as comportas dos interesse europeu.
O primeiro-ministro da Itália, Massimo DAlema, veio a Trípoli em novembro para encontrar-se com Kadafi, e deixou o país com a promessa do governo líbio de lutar contra o terrorismo. A União Européia levantou suas sanções no dia 13 de setembro, assim como a Suíça, Alemanha e a Rússia. A Grã Bretanha reabilitou suas relações diplomáticas no dia 24 de novembro depois que uma alta delegação de comércio visitou o país em julho. A Swissair, a British Airways e a Alitalia abriram vôos para Trípoli.
"Você é bem-vindo para investir na Líbia.... nós não somos piratas, rebeldes ou terroristas", Kadafi declarou durante uma conferência de negócios em setembro, da qual participarem centenas de executivos.
Na mesma conferência, o ministro da economia, Abdel Hafidh Zlitni, disse que a Líbia precisa investir US$ 35 bilhões nos próximos cinco anos, a maioria desses recursos em setores não relacionados à produção de petróleo, e espera que US$ 14 bilhões venham de fontes privadas.
Mossa, o professor do Cairo, disse que será difícil atrair este tipo de dinheiro. Ele e outros especialistas apontam para o fato de que falta à Líbia um judiciário independente, essencial em casos de disputas envolvendo negócios, sem contar as restrições de câmbio e a disparidade de taxas. Os bancos compram um dólar por 0,45 dinar, mas vendem o mesmo dólar por quase dois dinares.
A Líbia também diz frequentemente que não irá abandonar completamente o socialismo e que irá direcionar os investimentos no que considera áreas críticas.
O governo está procurando por projetos de habitação, reformas de hospitais, tratamento de água e linhas de energia elétrica e de transmissão. Também quer aprimorar o aeroporto de Trípoli, construir linhas férreas para o Egito e para a Tunísia e erguer hotéis de luxo.
Moussa disse que economistas líbios concordam que reformas financeiras, administrativas e até políticas deveriam acompanhar a privatização, mas ninguém está à vontade para dizer isso abertamente sob a administração autoritária na qual a palavra final pertence a Kadafi.
A Líbia ainda tem que conquistar negócios fora dos setores de petróleo e gás, que rende ao país US$ 6,5 bilhões por ano. Muitos suspeitam que a Líbia esteja cortejando os europeus apenas como uma alavanca para pressionar Washington a erguer suas sanções, permitindo o completo retorno da Líbia á comunidade internacional. A indústria petrolífera líbia é quase que inteiramente baseada em tecnologia norte-americana, forçando o país a comprar peças de reposição no mercado negro, a preços exorbitantes.

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