Obras avançam na surdina em loteamentos na Serra da Cantareira
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domingo, 07 de março de 1999
Por Paula Pereira 
São Paulo, 08 (AE-REUTERS) - Pilhas de pedriscos, tijolos recém-colocados e um caminhão retirando terra eram sinais hoje (08) de que as obras avançam na surdina nos loteamentos clandestinos na Serra da Cantareira, foco das investigações sobre a máfia das propinas nas administrações regionais.
Só as vendas foram, aparentemente, suspensas pelas associações
mais porque há poucos lotes disponíveis do que por receio da fiscalização.
Após embargos e a prisão de loteadores, nos loteamentos Vila Rica, Brasil Novo e Labitare, na Avenida Sezefredo Fagundes, os moradores estão assustados, mas não desanimam.
"Não tenho mais nada a perder", lamentava o desempregado José Leocádio Neto, enquanto terminava a laje de sua casa no Brasil Novo. Ele investiu a indenização trabalhista no lote e era dos poucos a insistir na construção hoje, sob o olhar de dois guardas florestais que disseram "não dar conta de impedir todos de continuar".
Mesmo sabendo da prisão temporária, na sexta-feira, do empresário Marcos José Gomes, envolvido nas cooperativas, os "donos" do lote o defendiam. Gomes é acusado de pagar propina a fiscais da regional do Jaçanã-Tremembé para fazer vista grossa. A suposta propina é conhecida e confirmada pelos moradores que acham que o caso "não dará em nada".
A fim de apressar a ocupação irregular e torná-la "irreversível", Gomes deu material de construção a 30 famílias no Brasil Novo. Na semana passada, fiscais da Prefeitura ameaçaram demolir casas, mas nada foi feito.
No vizinho Vila Rica, o estágio avançado de "urbanização" tranquiliza os moradores. "Você acha que vão derrubar casas neste estado?", observava a moradora Cristiane. Um pouco antes, ela tentava convencer outra "dona" de lote a não desistir. A moça estava preocupada com a prisão de Gomes e queria revender seu lote, mas saiu dizendo que pensaria melhor.
água e luz - Há seis meses, as ruas do Vila Rica não estavam nem asfaltadas. Mesmo com quase 20 inquéritos policiais sendo analisados no Ministério Público contra os loteadores, hoje o local tem água, luz, asfalto e mais de 50 casas.
A maioria sabe que há irregularidades nas associações promotoras dos loteamentos, mas continua pagando prestações médias de R$ 300,00. "O advogado recomendou que a gente pagasse
só assim estaria garantida", disse Cristiane.
Para a delegada Juliana Godoy Rodrigues, que abriu os inquéritos, eles não devem pagar ou pagar em juízo. "Assim estarão respaldados na Lei de Loteamento e ajudam a quebrar as falsas associações."
Segundo ela, ao contrário do que estabelece o contrato, o dinheiro recolhido não tem sido repassado aos donos originais dos terrenos desmembrados, que podem, a qualquer momento, requerer a reintegração de posse.


