Berlim, 25 (AE-REUTERS) - A Otan tem definido os objetivos de seus ataques aéreos contra a Iugoslávia de forma deliberadamente vaga a fim de evitar perder a credibilidade no caso de eles não forçarem o presidente Slobodan Milosevic a aceitar um plano de paz para Kosovo.
Oficialmente, o objetivo não é bombardear Belgrado até que volte à mesa de negociações mas, no jargão corrente, "degradar sua capacidade militar de promover repressão em Kosovo".
Isto soa firme e deixa os líderes políticos e militares da Otan com as mãos livres para decidirem quando eles impingiram danos suficientes.
Mas a arte da tergiversação cria muitos dilemas e aparentemente contradições.
O secretário do Exterior britânico, Robin Cook, disse nesta quinta-feira que os bombardeios poderiam ser imediatamente suspensos caso o líder iugoslavo retorne à mesa de negociações. E o secretário de Defesa dos EUA, William Cohen, afirmou que os ataques irão continuar até que Milosevic escolha "o caminho da paz".
"Basicamente a meta é fazer Milosevic retornar à mesa de negociações, mas este não pode ser o objetivo militar porque você não pode bombardear até a cooperação", disse o analista de defesa Jonathan Eyal do Instituto de Serviços Reais Unidos da Grã-Bretanha.
"O problema é que os dois objetivos não são compatíveis", afirmou Eyal.
Tendo ocorrido o primeiro ataque, as chances de Milosevic aceitar o plano de paz de Rambouillet concedendo a Kosovo ampla autonomia policiada por tropas da Otan parecem pequenas, argumentou.
Isto significa que a duração da ação militar será provavelmente determinada pela capacidade dos governos ocidentais de sustentar o apoio público interno para a ofensiva, e o nível de oposição militar da Rússia, China e países do Terceiro Mundo nas Nações Unidas.
Outro fator espreitando logo atrás da curva é o desejo da Otan de ter o problema de Kosovo resolvido de alguma forma antes da cúpula do 50º aniversário da aliança em Washington de 23 a 25 de abril, a fim de evitar que a questão obscureça as celebrações.
Já existe algum debate complicado entre as nações aliadas.
O chanceler alemão, Gerhard Schroeder, teria sugerido nesta quarta-feira a líderes da União Européia que deveria haver uma pausa para a diplomacia depois de uma onda inicial de ataques aéreos.
A aliança tinha originalmente previsto uma campanha em duas etapas com uma pausa depois da primeira onda a fim de dar a Milosevic oportunidade para recuar.
Mas sob pressão de comandantes militares da Otan que temem uma retaliação sérvia contra albaneses étnicos em Kosovo e de assessores políticos que advertiram que uma campanha com pausas é mais difícil de sustentar junto à opinião pública, a idéia de fases separadas foi descartada.
Um formulador de política europeu para Kosovo disse que Milosevic provavelmente interpretaria uma pausa como um sinal de fraqueza ocidental.
Críticos domésticos da política ocidental têm se concentrado na aparente falta de qualquer final bem pensado para a campanha.
O que acontecerá se a Otan parar com os bombardeios e Milosevic pressionar sua ofensiva contra guerrilheiros separatistas em terra, perguntam eles.
"Não existe uma estratégia de saída definida", afirmou o senador republicano de Ohio George Voinovich, um sérvio-americano que se opõe aos ataques, à CNN.
Alguns partidários da Otan têm sugerido que a aliança deveria perseguir objetivos mais ousados, como a derrubada de Milosevic ou a independência de Kosovo.
Conversas sobre tentar derrubar Milosevic, disse Eyal, "levantam tristes paralelos com nossa política em relação a Saddam Hussein."
Um porta-voz do primeiro-ministro britânico, Tony Blair, disse hoje que "Milosevic e seus asseclas" são culpados de crimes de guerra, mas acrescentou no mesmo fôlego que não faz parte da política ocidental derrubá-lo.
Os Estados Unidos têm dito que o homem-forte da Sérvia é a raiz de toda a violência nos Bálcãs e sugerem que gostariam de vê-lo substituído.
O ex-assessor de Segurança Nacional dos EUA Zbigniew Brzezinski, escrevendo no Wall Street Journal, afirmou que líderes da Otan teriam de fazer um esforço especial "para sustentar o apoio político para uma campanha de bombardeio potencialmente suja e prolongada".
A hostilidade da Rússia e o risco do aumento da oposição doméstica no Ocidente tornam essencial que a campanha aérea seja "massiva em ordem de ganhar tanto militar quanto politicamente", disse ele.
Mas assumindo que Milosevic sobreviva e não aceite o plano de paz para Kosovo, pode ser difícil para o Ocidente declarar convincentemente sucesso.
"Ainda tenho de encontrar um único oficial em Londres que acredite que isto vai acabar com um resultado convincente", afirmou Eyal.
Ele disse que autoridades ocidentais temem uma partição de Kosovo, com a Sérvia dominando uma área ao norte da estrada Pec-Pristina, limpa de sua população albanesa étnica, e a Otan entrando sem oposição na parte sulista da província, cheia de refugiados e independente de fato de Belgrado.

mockup