Apesar de ser a região mais pobre do País, o Nordeste tem um porcentual de obesos não muito diferente do Sudeste, bem mais desenvolvido economicamente. Segundo os dados da primeira Pesquisa de Padrão de Vida (PPV), divulgada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), há 8,7% de nordestinos obesos enquanto na região Sudeste o índice é de 10,5%. No total das duas regiões, os obesos somam 9,8% - um crescimento expressivo em relação à Pesquisa Nacional de Saúde e Nutrição (PNSN), realizada pelo IBGE em 1989, que encontrou um índice de 8,2%.
O fenômeno nordestino reflete uma tendência mundial. ‘‘Os estudos internacionais mostram que primeiro engordam as mulheres, depois a população mais rica e, em seguida, numa velocidade impressionante, os menos desenvolvidos’’, afirmou ontem a epidemiologista Rosely Sichieri, do Instituto de Medicina Social da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj). Foi o que aconteceu no Brasil: no Sudeste, o número de obesos em relação à PNSN cresceu menos do que no Nordeste, que tinha apenas 5,1% nessa condição há nove anos.
Trata-se de um dos lados perversos da globalização. ‘‘Estamos adquirindo o que há de pior no Primeiro Mundo’’, disse Rosely. ‘‘O brasileiro está mais gordo, o que não significa que esteja melhorando sua alimentação e consumindo nutrientes importantes’’. A influência da propaganda de alimentos industrializados e a proliferação dos fast foods mudaram o conceito alimentar mesmo das populações mais carentes. ‘‘O Nordeste vem transformando seu perfil alimentar, absorvendo o conceito nutricional do Sudeste’’, afirmou o endocrinologista Jorge Bastos Garcia.
Ele lembrou que os fast foods e a comida a quilo - qualificada por Garcia de ‘‘mal preparada’’ - são baratos e acessíveis à população de baixa renda. Ao consumir gorduras e carboidratos de pães, hambúrgueres, doces e biscoitos, a pessoa engorda, mas não ganha em saúde. ‘‘A mídia é o principal inimigo da boa alimentação, porque ninguém faz propaganda de frutas, legumes e verduras, mas de biscoitos, achocolatados e hambúrgueres’’, lamentou a nutricionista Lucia Rodrigues, da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz).
Os especialistas estão felizes com a queda no índice de desnutrição, que passou de 5,9% nessas regiões para 4,6%, mas alertam para o nascimento de uma nova doença: a obesidade. ‘‘A dieta do Terceiro Mundo, o nosso feijão-com-arroz, era mais saudável e mesmo a desnutrição é mais fácil de combater do que a obesidade’’, disse Rosely. A PPV calculou a obesidade a partir do chamado índice de massa corporal (IMC), um padrão internacional obtido pela divisão do peso corporal em quilos pelo quadrado da altura, em metros.

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