OAB vê descompasso entre discurso e ação do governo
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sábado, 22 de abril de 2000
Por Freddy Krause e Sônia Cristina Silva 
Brasília, 23 (AE) - O presidente nacional da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), Reginaldo de Castro, disse hoje considerar "lamentável" o uso da violência policial contra manifestantes nas comemorações dos 500 anos do Descobrimento do Brasil, em Cabrália, na Bahia, e a exclusão do povo, quando na verdade deveria tratar-se de um evento de cidadania. O deputado José Genoíno (PT-SP) prevê repercussões negativas no Congresso, nesta semana.
Para o presidente da OAB, a manifestação em Porto Seguro "revela um nível de insatisfação extremamente grave". Ele admite que o discurso do presidente Fernando Henrique Cardoso é democrático, mas constata que há um descompasso entre o discurso e a ação do governo. De Castro atribui essa situação ao isolamento existente entre Estado e Nação.
Esse descompasso, segundo ele, chega a tal ponto que quando é feita uma ação em nome do cidadão, esta ação acaba chegando ao povo como algo que é contra ele. E isso acontece, na opinião dele, pela falta de diálogo, que acaba se manifestando pela edição de medidas provisórias pelo governo federal, sem chance para a população participar da formulação de políticas que afetam seu próprio destino.
Quanto ao argumento, frequentemente usado, de que o Brasil de hoje é fruto da herança de 500 anos, o presidente da OAB disse que "graças a Deus já se passaram os 500 anos do Descobrimento" e que, agora, "é preciso refundar as instituições para que se possa reverter a insatisfação popular".
Reginaldo de Castro disse que não é com violência policial que se resolve o problema da insatisfação popular e insistiu ser preciso estabelecer um clima de diálogo. Segundo ele, é necessário que os partidos políticos, que são a representação popular num regime democrático, assumam o seu papel. "É preciso repensar tudo. Cabe às lideranças políticas darem espaço para a manifestação, e não mandar a política reprimi-la com violência"
sustentou.
Para o deputado José Genoíno, os fatos ocorridos em Porto Seguro refletem a realidade nacional. "Relatam a história do Brasil: o poder protegido e o povo apanhando", afirmou. "Os 500 anos não são de Fernando Henrique Cardoso ou do governo da Bahia", protestou o deputado, para quem as oposições devem levar o fato à discussão na Câmara e no Senado. O parlamentar, contudo, acredita que a maior repercussão virá de fora. "Essa repressão desproporcional e violenta a manifestações do povo vai pegar muito mal para o Brasil no exterior", acredita.


