Belém, 20 (AE) - A presidente da Ordem dos Advogados do Brasil no Pará, Avelina Hesketh, afirma ser irrelevante identificar a autoria do tiro que deu origem ao conflito em Eldorado dos Carajás - se o primeiro disparo partiu de arma de um sem-terra ou de um policial . "O que interessa foi o resultado patético que produziu; 19 pessoas foram mortas e outras 69 saíram feridas com lesões corporais, várias delas graves", disse.
Sobre o comentário do perito Mauro Ricart, ontem (19) à noite no Jornal Nacional, da Rede Globo, ressaltando que os tiros partiram do lado da PM, ela diz que é também importante investigar não apenas quem atirou, mas "quem deu a ordem". Segundo Hesketh, discutir de quem partiu o tiro inicial é menos importante que o saldo produzido por essa atitude.
A decisão de absolver os oficiais, critica, "feriu os princípios daquilo que se espera da Justiça". Hesketh questiona também o papel do Tribunal do Júri, formado por "pessoas leigas sobre o Direito e que julgam com base em critérios como emoção e convencimento". Acrescenta não ser contra a extinção do júri popular, mas propõe uma reflexão sobre se esse júri "reflete a opinião da sociedade".
Silvio Mendonça, o jurado que causou polêmica no final da sessão de julgamento dos oficiais acusados de comandar o massacre, disse que só concordou em falar à imprensa depois de consultar o juiz do processo, Ronaldo Valle. Ele afirma que pôde constatar o disparo na fita de vídeo da TV Liberal durante a fase acusatória, ocasião em que a promotoria repetiu diversas vezes as imagens. Ele justificou que percebeu o tiro pelo fato de ter experiência com armas de fogo."Uma fumaça foi a primeira imagem que vi", relatou.
Ele garantiu que não sofreu qualquer constrangimento após o julgamento e - pelo contrário - foi o único dos jurados que saiu da Unama - local do julgamento - no próprio automóvel, pois os demais deixaram o local em um ônibus escoltado pela PM. "Jamais vou falar qual o meu voto", afirmou. Ele ressaltou que o seu gesto não significou que tenha votado pela absolvição dos acusados.
Silvio contestou a crítica de que teria tentado desmoralizar a promotoria. Alegou que as provas tinham sido emitidas pela acusação, por isso a ela direcionou as perguntas ao final do julgamento. "Eu não tentei induzir ninguém", assinalou, referindo-se à informação segundo a qual ele teria influenciado os demais membros do júri popular.
O jurado não soube dizer se a exibição da fita contribuiu para a mudança do resultado do julgamento. Disse que o fato de querer tirar a dúvida no final do julgamento, deveu-se à impossibilidade de não poder se manifestar nas demais fases da sessão. Ele observou que a imagem do sem-terra empunhando uma arma derrubou a tese da acusação, uma vez que, nos três dias de julgamento, a Promotoria sustentou que não havia armas de fogo em poder do MST, apenas material de trabalho, como foices e machados.

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