Os católicos estão vivenciando a Quaresma, período que simboliza os 40 dias de preparação para a celebração da Páscoa. Entre a Quarta-feira de Cinzas até o Domingo da Ressurreição de Jesus Cristo (Páscoa), a maior parte dos cristãos exerce algum tipo de penitência como forma de reflexão sobre atitudes e arrependimentos.

Imagem ilustrativa da imagem O verdadeiro exercício da Quaresma
| Foto: Micaela Orikasa - Grupo FOLHA

“Venho de uma família católica e lembro que na Sexta-feira Santa minha mãe nem limpava a casa por ser um dia sagrado. Desde criança eu vivencio a Quaresma. Neste tempo, procuro fazer jejum até a hora do almoço, mas o importante mesmo é o coração e não o que a gente deixa de comer. Não é isso que Deus quer”, comentou a aposentada Erondina da Silva Felix, durante a missa de domingo (1) na Catedral Metropolitana de Londrina.

Pelo Twitter, o papa Francisco fez um apelo aos fiéis ao escrever que a Quaresma é tempo de apagar a televisão e abrir a Bíblia, de desconectar o celular e se conectar com o Evangelho. Ele também pediu para que os cristãos busquem viver mais a beleza de uma vida mais simples.

Em seu discurso na Quarta-feira de Cinzas, no Vaticano, o papa Francisco ressaltou que a Quaresma “é tempo para renunciar palavras inúteis, conversinhas, fofocas, mexericos e se aproximar do Senhor” e disse que “somos submergidos de palavras vazias, publicidades e anúncios falsos. Nos acostumamos a ouvir tudo sobre todos e corremos o risco de cair num mundanismo que atrofia os nossos corações. Custamos para distinguir a voz do Senhor que nos fala, a voz da consciência, do bem. Jesus, chamando-nos no deserto, nos convida a prestar atenção no que interessa, no que é importante, no essencial."

icon-aspas "O jejum é preparar o coração sincero. Deus vê no nosso coração”
Padre Rafael Solano -

Sobre o verdadeiro exercício da Quaresma, o padre Rafael Solano, vigário geral da Arquidiocese de Londrina, disse que o período tem como objetivo a reconciliação com Deus, com os irmãos e conosco. “Para nós, cristãos, o número 40 tem um significado muito forte. Quarenta foram os anos que o povo de Israel passou pelo deserto e 40 dias e 40 noites foi o tempo que Jesus esteve no deserto. O deserto para nós é um lugar privilegiado para descobrir aquilo que é essencial”, destacou.

Padre Solano afirma que esse período de 40 dias vai nos levando a descobrir a beleza de uma vida nova. “É uma travessia que ao longo da liturgia vai dinamizando a nossa forma de agir. Um segundo elemento que é importantíssimo para nós é um tempo de encontro com o tripé proposto pelo Evangelho de Mateus, especialmente para nós que seguimos Jesus”, completou.

icon-aspas “Precisamos perceber que nossa solidariedade é importante para que a nossa fé seja verdadeiramente enraizada”
Dom Geremias Steinmetz -

JEJUM, ORAÇÃO E ESMOLA

O tripé citado por padre Solano é constituído pela prática de jejum, oração e esmola. Ele explica que o jejum é como uma experiência, na prática concreta da austeridade. “O jejum não é somente, e todos nós sabemos, de coisas materiais, de coisas específicas. O jejum é preparar o coração sincero. Deus vê no nosso coração”, afirmou.

Já a oração é aquela feita no silêncio do quarto, onde só Deus pode enxergar. “Então, a Quaresma é um tempo, se podermos chamar assim, de nos prepararmos para descobrir o valor da vida passageira”, apontou.

Por último, o pároco fala sobre a esmola, prática que ele considera a mais difícil de todas. “A esmola não está pautada pela ação social, pela organização funcional, mas pelo bem que esse dinheiro, essa quantidade que eu estou dando vai fazer independentemente a quem for. Tereza de Calcutá dizia que só quem é capaz de deixar um milhão de dólares num caminho desconhecido sabe o que significa dar esmola”, citou.

FALSO MORALISMO

Questionado sobre a atitude de alguns cristãos que optam em abrir mão de alimentos específicos durante a Quaresma, apenas no intuito de fazer um esforço, padre Solano enfatiza que “é fruto de um falso moralismo. Por exemplo, botamos na cabeça que na Sexta-feira Santa é importante fazer uma excelente bacalhoada, reunir primos e familiares, gastando dinheiro à vontade para comer a tal bacalhoada. Tudo isso é falsidade e se o cristianismo andou por aí é hora de dizermos a verdade: esse não é o nosso caminho”, pontuou.

Na casa do segurança Ângelo Custodio Lourenço, em todos os dias da Quaresma, ele e a esposa rezam no silêncio do quarto e procuram deixar mais de lado a televisão e o celular. “Também já é tradição na família em não comer carne na quarta e na sexta. Mas o mais importante é a pessoa orar mais, buscar fazer caridade e ter mais amor ao próximo”, comentou.

A dona de casa Elaine Storti revela que na Quaresma seu maior exercício é refletir sobre as próprias atitudes na convivência familiar e na comunidade. “Não faço jejum, mas procuro me segurar nas palavras para evitar brigas, conversar mais e dar mais atenção às pessoas. Acho que é um momento também para cada um pensar mais na na vida e rever comportamentos”, disse.

RENOVAÇÃO INTERIOR

O arcebispo de Londrina, dom Geremias Steinmetz, disse que na Quaresma todos os sinais que na liturgia são no sentido de conversão, de volta para Deus. “É fazer com que as pessoas efetivamente aproveitem essa oportunidade para uma renovação interior, para uma dedicação maior à oração, ao jejum e ao mesmo tempo para a caridade, simbolizada um pouco pela esmola”, disse.

E, ao afirmar que hoje se fala menos no jejum, o arcebispo lembra que o jejum continua sendo elemento importante para que as pessoas possam perceber a realidade do outro, especialmente dos mais pobres. “Precisamos perceber que nossa solidariedade é importante para que a nossa fé seja verdadeiramente enraizada”, completou.

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