Santa Cruz, Califórnia (AE-AP) - A idílica costa central californiana, que já foi denominada "a terra dos verões sem fim" pelos exploradores espanhóis, está rapidamente se transformando na "cibercosta", na medida em que trabalhadores em tecnologia e corporações transbordam do vizinho Vale do Silício.
"Como isso poderia ficar pior", disse James Crowel, um residente que passou por uma feira de tecnologia realizada na cidade recentemente. "Esta é a San Jose de 20 anos atrás. No campo ainda temos paz e tranquilidade, possums, corujas, guaxinins e coiotes, mas no centro você não pode ir a lugar algum. O tráfico está se tornando abominável".
A costa central californiana, que expande-se por 240 quilômetros de Montara a Monterey, é uma das cerca de doze comunidades com um total de cerca de 500 mil habitantes. Nas regiões paralelas à costa e mais para o interior, mais de 2 milhões de pessoas habitam cidades em franco desenvolvimento ao sul de São Francisco.
"O Vale do Silício é provavelmente a área de desenvolvimento econômico mais dinâmica de todo o mundo", diz Gary Patton, que coordena a LandWatch Monterey, uma organização de conservação. "E está colocando uma pressão incrível sobre a costa central".
Vinte anos atrás, o Vale do Silício, que já foi conhecido como "Vale da Ameixa Seca", era exuberante com diversos pomares, indústrias de empacotamento de frutas, ar limpo e casa a preços acessíveis. A explosão da alta tecnologia aumentou substancialmente os rendimentos e praticamente eliminou o desemprego, mas a qualidade de vida da pequena cidade em lugares como Sunnyvale, Campbell, Cupertino e Mountain View desapareceu também.
As escolas estão superlotadas, o tráfego é geralmente congestionado, os preços das casas dispararam e os edifícios comerciais e campos de corporações, Cisco, Intel, Apple, IBM, Sun e muito outros, substituíram fileiras de pessegueiros. Em dias claro, os residentes do Vale do Silício ainda podem ser as montanhas de Santa Cruz, cobertas de sequóias, os parques oficiais e as comunidades dos portos costeiros de Half Moon Bay, Santa Cruz, Monterey e Carmel.
Mas estas pitorescas cidades agora estão crescendo e tornando-se tecnológicas também. Com apelidos como "a costa cibernética" e "as praias de silício" a costa tornou-se o lar de dezenas de novos negócios lidados á Internet e à tecnologia.
Primeiro vieram os trabalhadores, bem-pagos programadores do Vale do Silício com vontade de viver além das montanhas ao longo das bem cuidadas e enevoadas estradas a fim de viver próximos à praia. Hoje em dia, cerca de 60 mil pessoas deslocam-se todo dia pelas pistas duplas da Highway 17 de Santa Cruz para seus lucrativos empregos no Vale do Silício.
Eles incentivaram a economia da costa com seus salários, mas também fizeram subir os preços das casa para mais de US$ 400 mil em média e criaram congestionamentos diário ao longo da bela Highway 1. Em pouco tempo os "techies" começaram a abrir negócios na região costeira.
Uma nova companhia é aberta na cidade de Santa Cruz a cada duas semanas de acordo com Matthew Herman, diretor de contabilidade da agência de empregos Hall Kinion, em Capitolia.
A Câmara de Comércio de Santa Cruz, que patrocinou a feira de negócios de alta tecnologia no mesmo dia e bloco onde acontece a feira semanal dos agricultores, no centro, diz que não seguirá o caminho de destruição seguido pelo Vale do Silício.
"A chave é manter a qualidade de vida que temos aqui, em vez de crescer de qualquer jeito", diz Greg Carte, representante de vendas e marketinf da Câmara.
Mas o crescimento tem sido rápido. Hoje em dia, a baía de Monterey não é apenas o lar apenas de um santuário de biodiversidade marinha e de dezenas de parques estatais, mas também de cerca de 20 novos projetos ligados à Internet. Há também alguns veteranos, a Santa Cruz Operation Inc., ou SCO, fundada em 1979, é líder mundial em software para negócios, e a Texas Instruments tem uma manufatura em Santa Cruz que emprega 600 pessoas.
Os líderes locais concordam que alguns danos já foram feitos. Os preços de casas em Santa Cruz e Monterey estão entre os mais altos da nação e a Highway 17 rotineiramente ocupa lugar na lista das dez estradas mais perigosas e movimentadas.
Mas os residentes estão brigando contra esta situação. Na cidade de Santa Cruz, os habitantes e líderes políticos locais geralmente barram propostas para alargar as rodovias, o que iria tornar mais fácil chegar e sair do local. Quando um grande empresário do ramo de alta tecnologia apresentou planos para a contrução de uma mansão na bela estrada costeira de Santa Cruz, centenas de residentes fizeram protestos.
Na baía Half Moon, novas leis estão agora em vigor para limitar o crescimento. E na cidade de Monterey, novos projetos são simplesmente impedidos na área Big Sur. Em San José, o presidente da Câmara de Comérico do Vale do Silício, Steve Tedesco, diz que a qualidade de vida na região é melhorada pela costa, para onde trabalhadores podem escapar para tomar sol nas praias, andar pela florestas ou bebericar café no centro da cidade.
Infelizmente, diz ele, as cidades costeiras "não têm total controle sobre seus destinos". "Você vê o impacto que o crescimento dos postos de trabalho no Vale do Silício", disse ele. "Há pessoas aqui que argumentam que Santa Cruz já permitiu muito desenvolvimento em sua costa. Sim, aqui no Vale do Silício nós destruímos nossos pomares, mas há outros pomares. Uma vez que você destrói a costa, não há como recuperá-la".