O último verão do Milênio
Quando você colocar seu lindo pezinho na areia, quando estiver lendo estas linhas e tomando sol beira-mar, tenha certeza de que estará vivendo o último verão do milênio.
Que será de todos nós no próximo janeiro, já no ano 2000?
Essa data fatídica de que tanto ouvimos falar?
É o novo milênio que chega, sem trazer o fim do mundo nem nada.
Talvez esse ano 2000 tão esperado venha cheio de fim para algumas coisas - que precisavam acabar mesmo - para uma parte do velho mundo caduco que morreu e ainda não deitou...
Fim do mundo. Mas que mundo se eu acabei de colocar meu maiô, esticar minha toalha e passar meu protetor solar?
Para muitos o mundo nem começou. Como é, então, que ele poderia estar acabando? Quando lembro desse modelo burguês - vigente há uns 3 ou 4 séculos, quando penso nas diferenças desse nosso mundo ‘‘globalizado’’ onde o oriente e o ocidente vivem vidas tão díspares, quando lembro das Áfricas, seus leões e seus raquíticos, e me demoro a olhar o mapa do meu Brasil, me pergunto: onde estão as caravelas, a Pinta, a Nina e a Santa Maria que aportaram aqui há menos de 500 anos?
Como é que um mundo que nem foi descoberto por completo pode acabar?
Vou listando minhas perguntas.
Alguém já disse que elas sempre serão únicas. AS respostas é que podem ser várias e muitas.
E eu, esticadinha na areia, ouvindo o barulho do mar e as fofocas de mais um verão, nos cochichos de quem ‘‘ficou‘‘com quem, reflito que esse é o último verão do milênio...
Esse verão tão curtinho, que a gente espera tanto que chegue, contando os dias nos dedos da mão e marcando quantos dias de sol tomou, é o último.
E esse meu prazer - que nenhuma tecnologia soube ainda reproduzir - feito de calor e suor, se mistura com essas conjecturas, pois a Terra é redonda e meus pensamentos também.
A crise do dinheiro, o carro novo que adiamos para comprar, o cartão eletrônico que não pode ser roubado, o alarme da casa que dispara, a vacina contra a doença medieval, a epidemia em vista, a Coke Machine que só aceita ficha certa e eu. Eu querendo apenas tomar meu sol, colorir meu corpo e tanta gente em volta nas campanhas de ‘‘não suje a praia’’.
Meu último verão do milênio acaba sem nem ter começado direito.
Dou um mergulho e espero a nuvenzinha má que vai cobrindo o cantinho de sol que brilha só para mim. Guardo minhas perguntas, fecho o guarda-sol, bebo o último gole d’água, acerto o relógio e me enrolo na toalha cheia de areia.
Caminho devagar pelo calçadão da praia, olho os rostos que passam por mim.
Onde estaremos no verão que vem?
Karmel Meir
verão 98/99

OBS. Segundo meu amigo Ney Alves de Souza, o milênio só acaba no dia 31 de Dezembro de 2000.

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