Lima (AE-AP) Estes são dias que os "limenos" temem. Os habitantes desta cidade de 8 milhões, na árida costa pacífica do Peru, estão profundamente submersos no inverno no hemisfério sul e contam as vezes em que viram o sol nos últimos meses.
Por causa da sua localização, próxima ao sul do equador, Lima deveria ser ensolarada, tropical. Mas não é nada disso.
"Lima tem duas estações, ruim e pior. O sol nunca brilha e é deprimente como o inferno", lamenta Jim Hunt, um texano que vive no Peru há três anos. Seu exagero não é muito grande.
Durante os meses de inverno, um neblina persistente vem do Pacífico, encobrindo a cidade com uma umidade que congela os ossos e a dá ao local aquele ar melancólico que tem inspirado escritores por séculos. Apesar da umidade, que pode chegar a 99%
Lima nunca enfrentou tempestades. A justaposição dos Andes, quase abraçando o oceano, e a fria corrente Humboldt batendo na costa do Peru pelo norte, bloqueia a chuva.
Entre maio e outubro, dias de sol são raros. O céu do inverno é depressivamente cinza e algumas vezes a neblina é tão espessa que você sente como se estivesse respirando água.
Os invernos de Lima são notórios por sua amargura. Depressão constante, as taxas de suicídios aumentam e todos ficam irritadamente cansados. Os peruanos têm um palavra para esta sensação: "abulia". Eles também têm um nome para a cerração que paira sobre a capital: "garua". Quando o sol brilha através da garua, inesperadamente, num dia de inverno, como aconteceu na sexta-feira por algumas horas, o ritmo da vida nas ruas acelera-se, as pessoas retiram algumas camadas de roupas e, por um momento, a cidade sai de seu prisioneiro uniforme cinza de inverno.
Pessoas que visitam Lima pela primeira vez ficam surpresas ao saber que o clima no local não é o mesmo do Rio de Janeiro. Viajantes desapontados não são um fenômeno novo no local.
Herman Melville visitou Lima a bordo de um navio caçador de baleias no século XIX. Em sua clássica novela "Moby Dick", ele refere-se aos "céus áridos" da cidade e a sua escuridão, chamando-a de "desordenada Lima, a mais estranha e triste cidade que vós poderíeis ver".
Outro renomado visitante do século passado, o naturalista Charles Darwinm ficou ainda mais fascinado com a visão do clima peculiar de Lima. Em seu livro "A Viagem do Beagle", Darwin escreveu: " Um sombrio amontoado de nuvens paira constantemente sobre a terra, de maneira que, durante os primeiros 16 dias eu tive apenas uma visão da Cordilheira, atrás de Lima...Durante quase todos os dias de nossa visita, houve um chuvisco espesso, que foi suficientes para tornar as ruas lamacentas e as roupas úmidas: isto é o que este povo fica contente em chamar de orvalho peruano".
Os visitantes atuais de Lima imediatamente percebem o grande número de clínicas para o tratamento de asma que pontuam a cidade, um testemunho de um dos climas mais prejudiciais à saúde em todo o mundo. A asma é comum porque o ar úmido, que nunca é limpo pela chuva, retém todos os tipos de poluentes que irritam os pulmões. Nos últimos anos as clínicas têm também desenvolvido tratamentos para pacientes que sofrem de depressão sazonal, colocando-os sob lâmpadas solares para terapia intensiva de luz.
Antonio Chavez é um agrônomo de Arequipa, uma cidade ao pé da Cordilheira dos Andes no sul do Peru, onde o sol brilha o ano todo.
"Esta contínua neblina da cor da barriga de burro me dá uma grande nostalgia da minha terra", diz Chavez enquanto bebe uma fumegante xícara de "emoliente", uma mistura de ervas que é conhecida por desviar os danos trazidos pela "garua". "Graças a Deus, quando estamos a ponto de nos suicidar, temos um pouco de luz do sol", disse ele. "Eu vivo em Lima há 40 anos e ainda não me acostumei a este clima. E quem se acostuma?".

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