'O TERMINAL' - Turista é obrigado a morar em aeroporto
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 14 de outubro de 2004
Kamila Fernandes<br>FolhaPress 
Fortaleza, CE- Há 20 dias, o turista Sherynel Gregorio, 36, nascido em Curaçao e morador em Amsterdã (Holanda), dorme sobre um banco, no terminal onde ficam os taxistas no aeroporto de Fortaleza.
Após passar uma semana de férias na cidade, ele queria voltar para casa, mas foi impedido porque não tinha o dinheiro da taxa de embarque para o retorno.
Depois de conseguir o dinheiro (cerca de R$ 150) ao fazer bicos, como lavar carros, Gregorio descobriu que sua passagem não valia mais e que a empresa de turismo onde havia comprado o pacote de viagem não daria outra. Ele espera que o Consulado da Holanda na cidade o ajude a voltar o mais rápido possível.
A história de Gregorio parece o roteiro de um filme que está em cartaz, ''O Terminal'', protagonizado por Tom Hanks, inspirado em um caso real de um iraniano que passou a viver no aeroporto Charles de Gaulle, em Paris, por não ser aceito no país e não poder mais voltar para casa.
Sem conhecer a cidade e falando muito pouco o português, Gregorio foi acolhido pelos taxistas, que o encontraram perambulando.
O turista trabalha em Amsterdã fazendo limpeza em prédios e ganha, por mês, 890 euros (R$ 3.115). Solteiro e pai de uma menina de 10 anos, ele diz que gasta pouco e que adora viajar. ''Quero voltar (ao Brasil) em dezembro, mas nunca mais compro pacotes turísticos.'' O pacote da Holanda para Fortaleza custou 629 euros e, segundo ele, não havia a informação de que era necessário pagar uma taxa de embarque.
''A primeira coisa que farei quando voltar é procurar um advogado. A empresa de turismo terá que pagar tudo o que me fez perder durante todo esse tempo.''
O cônsul honorário da Holanda em Fortaleza, Luciano Montenegro, disse ontem que não poderia dar uma passagem a Gregorio para não abrir um precedente.
Segundo ele, não foi possível fazer um acordo com a empresa de viagem e a única saída será combinar com a família do turista para que, assim que ele chegue a Amsterdã, faça o reembolso da passagem.
''O problema é que isso já está demorando muito, e a situação dele aqui não é boa, não tem conforto nenhum'', disse o taxista Caetano Amorim. ''Ele está sempre aparentando bom humor, mas todo mundo sabe que o que ele mais quer agora é voltar para casa'', disse o lavador de carros Rafael Dantas.
Os cerca de 110 taxistas de duas cooperativas que trabalham no aeroporto disseram que, caso o consulado não dê uma solução rápida para o retorno de Gregorio, eles mesmos farão uma coleta de dinheiro para pagar a passagem.
''Fiz muitos amigos aqui. Tenho sorte de ter sido recebido por esse povo acolhedor, porque sei que, se fosse um brasileiro sozinho no aeroporto de Amsterdã, estaria passando fome'', disse Gregorio.


