O tempo e a justiça Do correspondente Gilles Lapouge
Paris, 26 (AE) - A chuva de pedras caiu, muito violenta, sábado, no sul da França (Pirineus). Quando cessaram os granizos, meia hora depois foi feito o inventário. Um desastre: 10 000 hectares de videiras massacradas. Neste ano, ali não haverá colheita. A ruína.
Nada surpreendente: nessas orlas do Mediterrâneo, o tempo é louco.
Tempestades devastam toda uma colheita. Os camponeses conhecem as fatalidades do céu.
Mas, neste ano, observa-se uma reação inédita: os viticultores da região torturada uniram-se e entraram com uma ação judicial: fizeram uma denúncia. Contra quem? Contra o serviço de meteorologia francês, Météo-France.
Essa denúncia anuncia a entrada de nossas sociedades em uma nova era.
Uma era dominada, de um lado, pela ciência, por outro, pela justiça.
Até hoje, a meteorologia era apanágio dos camponeses e dos marinheiros, das máximas ancestrais, da incerteza e da aleatoriedade.
Os "velhos" nos campos, dizem que: se o vento vem do Leste... se as nuvens estão cor-de-rosa pela manhã... se as rãs sobem em seu bocal... se as andorinhas voam baixo... etc. etc.
A meteorologia não era uma ciência. Simplesmente uma arte. Na pior das hipóteses, um assunto para brincadeira e, na melhor, a prova do caráter caprichoso dos deuses. Isso mudou há uns 20 anos: os meteorologistas fizeram tanto progresso, que suas previsões tornaram-se cada vez mais confiáveis.
Consequência: os navegadores, ao longo de suas regatas, traçam seus itinerários com base nos conselhos dos meteorologistas. Os agricultores semeiam em função das previsões meteorológicas etc. Até mesmo os namorados marcam seus encontros ao ar livre ou em um quarto de hotel, após terem consultado as previsões do céu.
O folclore e a poesia talvez tenham perdido para ela, mas o conforto dos camponeses, dos marinheiros ou dos namorados ganhou. Todavia, jamais alguém pensou que as previsões meteorológicas fossem, "palavras do Evangelho", matéria de ciência exata. Ora, tudo acaba de mudar.
Os que nos dizem, hoje, os viticultores que processam os meteorologistas na justiça, é que a meteorologia, como qualquer coisa neste mundo, tornou-se uma ciência exata.
A segunda observação diz respeito à extensão inquietante dos domínios consagrados ao "judiciário". Proveniente do outro lado do Atlântico, passando em seguida pela Inglaterra, a onda do "tudo diz respeito ao judiciário" atinge o continente europeu. Suas consequências mais visíveis deram-se, em primeiro lugar, no registro da economia e da política: há alguns anos, na França, assim como em outros lugares, o mais temeroso de todos os poderes, antes mesmo que o da imprensa, é o poder do juiz. A maior parte dos homens políticos, por mais altos que sejam, têm "alguma dificuldade" com um juiz. Os homens políticos não podem tomar a menor iniciativa, a não ser que se cerquem, antes, de um exército de advogados.
Atualmente, a epidemia judiciária ganha outras atividades. É o caso, naturalmente, da farmácia ou da medicina. Um cirurgião, antes de afiar seus bisturis, faz você assinar dez desencargos para todas as ocorrências possíveis.
Os Estados Unidos conservam uma distância à frente. Um homem atingido pelo câncer pôde apresentar uma denúncia contra as companhias de cigarros que empestearam seus pulmões com o tabaco.
O cúmulo foi atingido pelo jovem surrealista que teve a idéia de processar sua mãe na justiça. Motivo da denúncia: sua mãe lhe deu a vida e esse jovem achou a vida triste!
Estamos na soleira de uma nova época, a do "judiciário". No que me diz respeito, se, após minha morte, percebo que Deus, em quem acreditei durante toda a minha vida, não existe, entrarei logo na justiça com uma acusação contra Jesus Cristo, contra os papas da Igreja, os evangelistas e os padres que me persuadiram da existência de Deus.





