Curitiba - Encontrar novas formas de difundir as causas ambientais, sem parecer "ecochato" ou "biodesagradável". Esse tem sido o desafio do cineasta e roteirista Fernando Meirelles. Diretor de sucessos como "Cidade de Deus", "Ensaio sobre a Cegueira" e "O Jardineiro Fiel", além de coprodutor do documentário Lei da Água, sobre o Código Florestal, ele participou ontem de uma palestra no VIII Congresso Brasileiro de Unidades de Conservação (CBUC), promovido pela Fundação Grupo Boticário, em Curitiba, onde contou ter dois projetos engatilhados a respeito do tema. A expectativa é contar histórias - reais ou de ficção - que prendam até mesmo aquele expectador aparentemente desinteressado.
"Estou deixando de ser cineasta e virando ambientalista por puro desespero. A sociedade parece que está dormindo. E vocês também não conseguem mobilizar; falam sempre para as mesmas tribos", afirmou, a uma plateia formada basicamente por cientistas e ativistas.
Como exemplos de profissionais bem-sucedidos na comunicação, ele citou o médico Drauzio Varella, que aborda questões relacionadas ao corpo humano, tabagismo e prevenção a doenças de maneira simples, em seu quadro no Fantástico, da TV Globo, e o biogeoquímico Antonio Donato Nobre, conhecido por disseminar o conceito de "bomba biótica" - teoria segundo a qual as árvores são responsáveis pela distribuição dos ventos e pela formação da chuva.
Um dos trabalhos de Meirelles já em andamento é uma série de televisão de seis episódios, para a emissora britânica BBC, focada nas mudanças climáticas. "Estamos desenvolvendo o projeto. O roteirista se chama Jack Thorne. Em novembro, a gente vai dar uma primeira olhada nos roteiros e a ideia é começar a produzir no final do ano que vem."
Embora a base seja Londres haverá personagens do mundo todo e cenas gravadas no Ártico, no Marrocos e na Floresta Amazônica. "Será um thriller político, com ação, sequestro", adiantou.
Na avaliação do cineasta, debates como o da preservação de espécies em extinção estão degastados para o grande público. "Lembram quando começou a primeira campanha do mico-leão-dourado? O troço foi crescendo e, hoje, já não atrai mais. Estou nessa onda agora de que você precisa achar o que o mico-leão-dourado tem a ver com a vida das pessoas", exemplificou.
O brasileiro também contou que está iniciando a produção de outra série, para ser exibida em serviços de streaming. "É com uma produtora canadense, a princípio, e a Amazon que vai (rodar). Fomos no mês retrasado para Los Angeles e estamos começando a ver. O esquema é o mesmo do Netflix. O tema são os desafios da humanidade no futuro próximo."
Mais uma vez, Meirelles pretende fazer links com a realidade, mas evitando um teor apenas pessimista. "Se você só dá a má notícia – apesar de que no aquecimento global a coisa não está nada bonita - o cara desengaja. É preciso deixar uma porta de saída, achar um jeito de dizer para a pessoa como ajudar", resumiu. "O que transforma a realidade é o recado emocional", completou.

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