O que está por trás do breakfast com o FMI
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quinta-feira, 04 de fevereiro de 1999
por Paulo Sotero 
Washington, 4 (AE) - Para os credores oficiais e privados do Brasil, a mensagem do café da manhã que o presidente Fernando Henrique Cardoso ofereceu ontem aos líderes da missão negociadora do Fundo Monetário Internacional foi o próprio encontro. Com o projeto de aprofundamento das reformas reafirmado após o baque provocado pela mudança do regime cambial
e a equipe econômica reconstituída em torno desse objetivo, com a escalação de Armínio Fraga para o comando do Banco Central, a grande incógnita é a determinação do presidente da Republica para levar adiante essa estratégia. Nesse sentido, o café da manhã de ontem, no Alvorada, foi mais do que uma oportunidade para o vice-diretor gerente do FMI, Stanley Fisher - que joga a própria reputação e a credibilidade do Fundo em sua aposta no programa brasileiro - certificar-se de que Fernando Henrique continua, de fato, comprometido com a política de estabilização. Foi também uma maneira de o presidente, de agora em diante, associar-se de maneira clara, pública e pessoal com a execução efetiva do programa.
"Existe um sentimento no mercado e nos governos que apoiaram o acordo do FMI com o Brasil que os tropeços que levaram a esta crise resultaram da falta de empenho pessoal e de pulso do presidente, antes e durante os dias mais críticos, para vender o programa ao Congresso e ao País e mostrar liderança diante de bravatas perigosas como o calote de Minas Gerais", disse o diretor para o Brasil de um dos grandes bancos de investimentos dos EUA. "Por melhor que seja a equipe, o programa é do presidente e só vai acontecer se ele quiser e não vacilar".
Essa mesma avaliação tem orientado as declarações que o secretário do Tesouro dos EUA, Robert Rubin, o presidente do Banco Mundial, James Wolfensohn, e outras autoridades de Washington fizeram nos últimos dias. Em linguagem diplomática, todos têm enfatizado o papel crucial do presidente da República na execução efetiva do programa econômico. Foi esta também a mensagem que o presidente Bill Clinton procurou transmitir a Fernando Henrique na conversa de vinte minutos que tiveram por telefone, na semana passada.
"Existe uma percepção de que o governo tem sido menos dedicado do que deveria na implementação detalhada do seu programa, o que inclui problemas de relações públicas junto ao mercado, ao FMI, e aos credores internacionais e ao próprio público", disse um alto funcionário da administração Clinton que transmitiu essa preocupação recentemente a Brasília. A questão não é a falta de declarações do presidente em favor das reformas, mas a ausência de disciplina e comando necessários para que o governo transmita uma mensagem coerente. As duas últimas semanas ofereceram pelo menos três exemplos de falas desencontradas do governo, que são sempre negativas mas podem ser especialmente danosas num momento de crise de credibilidade como a que o Brasil hoje enfrenta.
Domingo retrasado, com o ministro da Fazenda e o presidente do Banco Central em Washington para consultas de emergência com o Fundo Monetário Internacional, e a política cambial ainda no ar, o ministro da Educação, Paulo Renato Souza, saiu de uma reunião com o Fernando Henrique e afirmou que o governo manteria o câmbio liberado mas interviria se o real caísse abaixo de R$ 1 55 por dólar. Na segunda-feira, o mercado testou a nova banda invisível anunciada pelo ministro da Educação e a instabilidade aumentou. Alguns dias depois foi a vez de outro membro do governo manifestar-se sobre assunto que não lhe compete. Em plena crise, o ministro da Saúde, José Serra, que é sabidamente contrário a atual orientação e com o emprego de seu colega da Fazenda, Pedro Malan, criticou publicamente a política oficial - e permaneceu no cargo. Esta semana, o próprio Planalto emitiu sinais trocados. Na terça-feira, o porta-voz Sérgio Amaral anunciou durante a tarde que, a partir daquele momento, Fernando Henrique não mais faria comentários sobre mercado. Um par de horas mais tarde, o presidente fez exatamente o oposto: mandou dizer aos jornalistas que se sentia "encorajado" pela apreciação do real registrada naquele dia.
Ontem, depois do café da manhã com Fisher, o próprio presidente voltou a criar dúvidas no mercado ao indicar que talvez o Brasil não tenha necessidade de um novo desembolso do FMI, apenas dois dias depois de seu ministro da Fazenda ter afirmado o contrário. As dúvidas criadas por episódios como esses, após os percalços políticos que atrasaram a aprovação pelo Congresso do programa econômico negociado com o FMI, contribuíram para que se espalhasse no mercado uma impressão negativa sobre a atitude de Washington diante da crise. A suspeita era que o governo americano, que ficara desapontado pela maneira como o governo brasileiro decidira a mudança da política cambial, decidira tomar distância e deixar o Brasil à sua própria sorte.
Na semana passada, o secretário do Tesouro adjunto para assuntos internacionais, Edwin "Ted" Truman, esteve em Brasília e em São Paulo com a missão de dissipar essa impressão e estimular as autoridades econômicas e o palácio do Planalto a ir adiante com o programa econômico do presidente da República. De acordo com fontes oficiais bem informadas, a disposição de apoio dos EUA ao Brasil continua intata e deverá se manifestar em novos desembolsos dos crédito de US$ 41,5 bilhões coordenado pelo FMI - se o governo organizar sua mensagem, pronunciar-se de forma articulada sobre a política econômica e, acima de tudo, levar adiante o programa fiscal sem hesitações.


