Entre 30% e 40% das mulheres brasileiras queixam-se da redução do desejo sexual e de dificuldades orgásmicas. Segundo o psiquiatra e coordenador da Comissão de Sexualidade da Sociedade Brasileira de Urologia, Moacir Costa, é o preço a ser pago pelo público feminino por uma conquista histórica: a da busca pela afirmação social e profissional. Assim, o surgimento do Viagra não resolve o problema da impotência sexual que atrapalha a vida dos homens e, por conseqüência, seus relacionamentos. A mulher, parceira do dia-a-dia, também sofre dos distúrbios ocasionados pela falta de energia, stress e desafio de conciliar a vida profissional com o lar. Em entrevista ao repórter Marcos Espíndola, Costa fala sobre a possibilidade de uma vida sexual plena, segundo ele o sismógrafo de um relacionamento afetivo.


Folha Como o senhor analisa os crescentes casos de mulheres sofrendo com a falta de desejo sexual?
Moacir Costa A redução do desejo é o problema que mais atinge as mulheres hoje em decorrência de uma série de fatores. Um deles seria o próprio relacionamento conjugal. Sabe-se que não é muito fácil administrar uma boa convivência numa vida a dois em função das diferenças de cada um, as competições e dificuldades que vão arranhando o relacionamento. Há algumas questões que têm que ser assinaladas, pois esse crescimento que a mulher teve tem o seu preço também. Antigamente só o homem morria de infarto, só ele que era alcoólatra, que fumava. Começa-se a perceber que é crescente o número de mulheres que apresentam dificuldades na área sexual, principalmente a redução do desejo. Um dos fatores conhecidos mais antigos é a maternidade, que nos primeiros anos se a mulher não tomar cuidade acaba esquecendo o casamento. E toda aquela afetividade e energia dela é canalizada para a criança. Ultimamente vemos que o trabalho remunerado, a busca por um espaço nesse mercado, essa bem sucedida mulher de 30 (anos), paga um preço em decorrência da necessidade dela de afirmação social e se inserir profissionalmente. Hoje ela quer crescer e ganhar como homem. Isso tudo vai, de alguma forma, gerar um estado de tensão e stress muito elevado, dificultando estas trocas afetivas.
Folha Quais as queixas mais recorrentes hoje entre as mulheres?
Moacir Costa Hoje, uma das maiores queixas que temos percebido e que é mais preocupante entre as mulheres é a falta de desejo em decorrência dessa ambivalência de se dedicar a vida profissional ou vai para o casamento e se dedica a vida amorosa. Eu acho que, na realidade, a mulher percebeu que ela tem que ser independente. Eu ainda acho que esse é o caminho mais certo, independente do preço que se paga. Ela tem que ter autonomia, melhorar a auto-estima, para depois pensar em uma vinculação. Entrar em uma relação como antigamente faziam nossos avós, onde um era passivo e outro ativo, um trabalhava fora, ganhava dinheiro e tinha sucesso e a outra ficava em casa, sinto que já não funciona mais. Hoje você vê que toda mulher tem uma preocupação em poder crescer profissionalmente, afetivamente e isso, de alguma forma, é que vai possibilitar uma melhor parceria.
Folha E os homens estão preparados para isso?
Moacir Costa Evidentemente que para o homem entender esse processo é um pouco complicado. Isso cria muitas divergências, muitas hostilidades e muita competição, dificultando um pouco a sexualidade do casal. Isso gera uma fonte de dificuldades sexuais para o homem, como a disfunção erétil, a impotência, e na mulher a dificuldade orgásmica e a redução do desejo.
Folha Então estes problemas se intensificaram entre as mulheres a partir da segunda metade do século passado, quando elas passaram a buscar maior inserção no mercado de trabalho e na sociedade. Seria isso?
Moacir Costa Na realidade, acho que as coisas começaram com o surgimento da pílula anticoncepcional. A pílula passou a separar o que é sexo procriativo, o que é sexo lúdico ou o chamado sexo prazeroso. A mulher tem o controle da natalidade, regula a sua capacidade reprodutiva e isso tudo começou a mudar a medida que ela começou a disputar o mercado de trabalho, ter essa ascenção política e afetiva. Então eu vejo que a situação começou a mudar há quarenta anos, principalmente nos últimos 20 anos, quando o crescimento foi muito maior a medida que em vários setores da comunidade você vê mulheres ocupando postos de direção. É claro que isso tudo acaba afetando a qualidade de vida. São a família, as contas do final do mês, que podem contribuir para os problemas também.
Folha Como o homem deve agir para perceber que há algo de errado com a disposição da companheira, sem levantar suspeitas de uma falta de interesse por ele, se este não for o caso?
Moacir Costa Tem que haver um diálogo muito franco, uma relação muito transparente ao ponto de poderem conversar abertamente, colocando que o problema é mesmo o cansaço, que não é a falta de atração pelo parceiro e sim a ausência de energia da mulher. Tem que se evitar as interpretações errôneas, o ciúme patológico devido a falta de comunicação. Porque as vezes a pessoa vê o outro indisposto e vê isso como rejeição. O cara não se sente desejado porque a mulher está cansada. É preciso avaliar, pode ser até verdade. Pois o que mantém uma relação a dois é um estado de admiração. Se o casal se admira mutuamente é evidente que essa atração se mantém. Mas é preciso ressaltar que todo casal passa por um período de baixa, de apatia, de redução do desejo e isso é normal em qualquer etapa da vida, inclusive entre os casais jovens. A pessoa tem que respeitar o ritmo que o corpo e a mente colocam. É melhor ler um livro ou assistir um filme do que tentar uma relação sexual com baixa no desejo. E os problemas começam justamente por essa preceptação, por uma leitura errada que uma pessoa faz da outra.
Folha Quando as mulheres começam a apresentar com maior ocorrência tais problemas?
Moacir Costa Não têm estudos epidemiológicos como há no caso dos homens. Mas você tem um perfil através dos congressos de genicologia, onde vê-se uma população mais ou menos crescente de mulheres com baixa de desejo, dificuldades orgásmicas. Você encontra uma população de 30% a 40% de mulheres insatisfeitas com a vida sexual. E isso não tem idade. É claro que uma mulher jovem se mostra mais vibrante, mas também a gente observa que esta jovem de 25 anos encontrará dificuldades. Evidentemente que nessa faixa dos 40, 50 anos e na menopausa os problemas aumentam, em função da depressão, desse desequilíbrio hormonal inevitável. Nessa faixa de 30 a 40 anos, no auge da sua maturidade psicológica e profissional, também há uma mulher muito ansiosa, angustiada, com muitas incertezas, não tendo muito tempo para se dedicar a si própria e a vida amorosa. Isso realmente é uma fonte de conflitos inesgotável. Mas quando a parceria é boa essas questões são superadas.
Folha Qual a melhor forma das mulheres resolverem esse problema? Há medicamentos para isso?
Moacir Costa Há uma série de questões que tem que ser levada em consideração. Eu acho que a qualidade de vida, o tempo que a pessoa reserva para si é muito importante. As vezes a pessoa gasta três, quatro horas vendo televisão, quando poderia estar ouvindo uma boa música, ler um livro, fazer ginástica, conversar com o seu companheiro. É preciso se desvincular do trabalho, evitar de levar tarefas para casa. Separar o seu ambiente de trabalho da sua vida profissional é fundamental. Mas você também encontra mulheres que estão em uma determinada fase em que a reposição hormonal é da maior importância. Existe o Viagra feminino? Os laboratórios estão correndo atrás disso também. Há pesquisas nesse sentido. Mas tem mulheres que dizem que o marido ou o namorado usou o Viagra e elas também e que se sentiram extremamente excitadas, tiveram orgasmos mais intensos. Mas não há estudos que comprovem isso. O risco de a mulher fazer uso do Viagra está ligado ao fato de que são desconhecidos os efeitos colaterais se ela estiver grávida. Há outras também que fizeram uso e não sentiram nada. Da mesma forma que o Viagra garante a ereção no homem com o afluxo de sangue no pênis, a excitação da mulher é um afluxo de sangue na região clitoriana.
Folha Há então mulheres fazendo uso do Viagra...
Moacir Costa As mulheres são curiosas e é difícil controlar a intimidade do casal. Eu não aconselho, porque não há nenhum estudo ou pesquisa científica nesse sentido. Acredito que o problema dessa redução do desejo, da falta de impulso para o sexo nas mulheres, provavelmente será resolvido lentamente com o uso da testosterona. Acho que esse hormônio masculino, que é o hormônio do desejo e que as mulheres também têm, com o tempo talvez se consiga através de uma liberação lenta do organismo feito por via subcutânea. A pesquisa caminha muito nesse sentido e há ginecologistas fazendo uso desse tratamento em algumas pacientes, aliado a psicoterapia e a orientação do casal. Começa-se a perceber, através da prescrição da testosterona em doses baixas e lentas, que a mulher começa a erotizar o contato, ter mais pistas eróticas e fantasias.

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