Londrina - O fantasma da inflação volta a rondar as famílias brasileiras e, como sempre, o primeiro impacto é na conta do supermercado. Os preços dos alimentos estão entre os principais responsáveis pelo aumento de gastos e já levaram muitas famílias a diminuir o volume de compras, de acordo com Pesquisa Mensal do Comércio (PMC), feita pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). A inflação dos alimentos superou os demais indicadores, chegando a 13,48% em 12 meses, de acordo com o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), até março, enquanto a inflação geral ficou em 6,59% no período. Na prática, portanto, os consumidores estão desembolsando mais e levando menos produtos para casa.
A situação pode ser ainda mais complicada quando a intenção é comer de forma saudável. De acordo com o professor de Economia do Instituto Superior de Administração e Economia/Fundação Getúlio Vargas (Isae/FGV) e da Universidade Federal do Paraná (UFPR), Rodrigo Kremer, há várias forças atuando na alta dos preços, especialmente deste segmento de alimentos, que cresce cada vez mais com a variedade de produtos industrializados. Ao mesmo tempo que há a influência de fatores climáticos, elevando os preços das verduras, frutas e legumes, há um fenômeno em curso há dois ou três anos, ligado à maior renda média do consumidor.
"Historicamente, as classes A e B sempre tiveram um padrão de consumo diferenciado, que continua. Mas, paralelamente, houve uma transformação, recente e consistente, no padrão de consumo da classe C, pelo seu maior poder de compra. Tanto que várias multinacionais estão aumentando sua linha de produção e lançando produtos mais saudáveis", explica Kremer. O professor lembra, porém, que enquanto a demanda por este tipo de produto for maior que a oferta, eles continuarão caros. "Este fenômeno é inerente a qualquer mercado", resume.
A nutricionista Beatriz Ulate, professora da Universidade Norte do Paraná (Unopar) nos cursos de Nutrição e Gastronomia, acredita que é possível driblar a alta nos preços fazendo as escolhas certas, o que inclui às vezes ter um pouco mais de trabalho em nome da saúde. Ela defende que o melhor é, sempre que possível, evitar os alimentos industrializados e dar preferência aos minimamente processados ou in natura da época. "O problema maior continuam sendo os embutidos, enlatados e pratos prontos congelados, como as massas, que além de caros, contêm altos teores de sódio e outros conservantes."
Para a nutricionista, sempre é possível encontrar alternativas baratas e saudáveis nas bancas de verduras, frutas e legumes. Em visita recente a um supermercado, acompanhada da reportagem da FOLHA, Beatriz sugeriu vários alimentos que, no dia, estavam com preços acessíveis, entre eles a melancia (que pode, inclusive, entrar como ingrediente de molhos, junto com o tomate, para render mais); pimentão verde; laranja; banana; goiaba; abacate; batata-doce e abóbora que, segundo ela, são alimentos que estão deixando de ser consumidos por muitas famílias brasileiras em nome da facilidade de comer industrializados. "A batata-doce e a abóbora, por exemplo, são fontes baratas de vitamina A, que podem entrar na composição de vários pratos, como os tradicionais purês", sugere.
No setor de carnes, Beatriz aconselha a inclusão de peixes na dieta, que são pouco consumidos pelos brasileiros, apesar da extensão de nossa costa. "Normalmente dá para encontrar opções de peixes baratos, como a sardinha, que têm gorduras benéficas à saúde, como o ômega 3, que diminuem o risco de doenças cardiovasculares." Outra opção de carne saudável e mais em conta que a carne vermelha é a de frango, que, segundo a nutricionista, tem bom teor de proteína e vai bem em vários tipos de receita. "Também o ovo é um alimento barato e saudável, desde que preparado sem gordura e consumido sem excessos. Ele é rico em proteína padrão e seu valor nutricional se equipara ao da carne", esclarece a nutricionista.
Para Beatriz, não há motivo para o brasileiro ingerir tantos alimentos industrializados, como sucos. "Somos privilegiados. Temos por aqui uma grande oferta de frutas e verduras. Quando uma delas fica mais cara, é só optar por outra." No caso dos iogurtes e leite, a nutricionista ensina que, para quem quer economizar, o melhor é optar por aqueles embalados em saquinhos. "No caso dos iogurtes, alguns chegam a ser mais baratos que os sucos em caixinhas. Só é preciso ficar mais atento à validade. Depois de abertos têm que ser consumidos em 24 horas", orienta.

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