Londrina

Milton DóriaPreocupaçãoEquipe de ambientalistas estudam região da mata Doralice à procura de espécies raras: com a inundação provocada pelas barragens, animais podem desaparecer mesmo antes de encontrados A construção das usinas hidrelétricas de Jataizinho e Cebolão, no baixo Tibagi, região de Jataizinho (norte do estado), poderá acabar com centenas de espécies de animais e vegetais habitam hoje a região. Isso além de alagar uma parte considerável da mata Doralice, uma das últimas áreas de vegetação nativa que ainda resistem à devastação no Paraná. O projeto das barrangens já está praticamente concluído e a expectativa da Copel é de que até o final do ano as obras sejam licitadas.
O alerta sobre os prejuízos ecológicos que as usinas poderão trazer é de diversos ambientalistas que há anos estudam o local e lutam pela sua manutenção. A principal trincheira de defesa da mata Doralice está na Universidade Estadual de Londrina (UEL), dentro do projeto ‘‘Aspectos da Fauna e Flora da Bacia do Rio Tibagi’’, que desde 1989 promove estudos na região. Mas não é só: pesquisadores de todas regiões do Estado e também do País estão preocupados com a situação da reserva.
Estudos feitos no local apontaram que tanto a fauna quanto a flora da região são extremamente ricas em espécies, algumas delas muito raras, ameaçadas de extinção mundialmente, e possivelmente outras que ainda nem foram descobertas. Por isso, eles destacam, a construção de usinas hidrelétricas - e consequente alagamento para formação da barragem - traria prejuízos irreversíveis para a natureza, deixando literalmente debaixo d‘água uma riqueza ambiental incalculável.
Um bom exemplo dessa fauna poderá desaparecer antes mesmo de ser encontrado: é o pato mergulhão, um ave pouco maior que o marreco, com bico estreito e comprido, crista e ruído muito estranho para uma ave, mais parecido com o latido estridente de um cão pequeno. Ele já foi considerado extinto e hoje só há registros da existência dele em três lugares: Chapada dos Viadeiros, em Goiás; Serra da Canastra, em Minas Gerais; e na província de Missiones, na Argentina.
Mas um grupo de pesquisadores de Curitiba tem evidências de que o pato-mergulhão possa estar vivendo às margens do rio Tibagi, perto de Jataizinho. ‘‘Se a gente conseguir achá-lo será o máximo’’, diz o biólogo Marcos Bornschein, do Museu de História Natural de Capão da Imbuia, em Curitiba. Ele faz estudos na região desde o ano passdo, sobretudo na Mata Doralice, ao lado dos biólogos Mauro Pichorim e Bianca Reinert.
A Folha já divulgou o trabalho dos pesquisadores, inclusive a possível existência do pato-mergulhão na região. Mas percorrendo as pistas do animal, as evidências crescem cada vez mais. A começar pelas entrevistas com diversos moradores da região, que disseram ter visto a ave. Depois, pelas características do lugar, com vegetação vasta, água em abundância e, principalmente, corredeira. ‘‘A corredeira pode possibilitar a visão do peixe e, talvez, facilitar a pesca feita pelo pato’’, diz Bornschein.
O professor Luiz dos Anjos, da Universidade Estadual de Londrina (UEL), em pesquisas pela mesma região, também informou ao grupo ter avistado o pato-mergulhão, mas sem materializar prova, como uma fotografia por exemplo. E os próprios biólogos, há duas semanas, também acreditam tê-lo visto, mas já era final de tarde e conseguiram identificá-lo.
Para tentar atrair o pato-mergulhão, o trio tem usado um tape com os ruídos produzidor pelo animal. O som foi gravado pela primeira vez no final do ano passado, por um colega de Minas Gerais. Bianca Reinert resume: ‘‘O que atraiu a gente para cá é justamente isso, a possibilidade de encontrar animais raros, como o pato-mergulhão.’’

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